sábado, 22 de março de 2014

JoJo's Bizarre Adventure (2012): JOOOOOJOOOOOOOO

O novo anime da popular franquia, que estreou comemorando os 25 anos da série original.
Eu tenho a impressão que não se faz justiça a JOJO com discussões e analises. É algo que não se coloca em palavras, mas se sente. À medida que esse sentimento explode no peito, o corpo perde o controle e quando se percebe, você já está surtando e gritando JOOOOOOOOOOOOOOOOOOJOOOOOOOOOOOOOOOOOOO ou outro comportamento memetico dos personagens. Parece justo se você pensar que a obra tecida por Hirohiko Araki foi um esponja absorvente, que além das diversas influências da cultura pop ocidental, se espelhou no feeling do velho e clássico battle shounen, que nas antigas ainda era bastante concentrado no espirito “Nekketsu”, que é a característica do protagonista ter o sangue ardendo, pegando fogo nas veias. Ardor, paixão, entusiasmo, o que resultava em protagonistas/antagonistas esquentadinhos e orgulhosos em obras orientadas pro publico masculino, e especialmente no battle shounen em muito testosterona e músculos. E claro, os gritos passionais fazem parte do processo.

Você pode perceber que em Kill la Kill, Kaiji, Jojo, entre outros, os personagens ou o narrador tem um estilo de comunicação GRITADO durante os momentos mais intensos, é como se você pudesse sentir gotículas de saliva se agitando para fora da boca deles e resvalando na sua face. É uma atitude passional que demonstra a emoção dramaticamente, algo comum na escola de atuação japonesa clássica e absorvido naturalmente na sociedade (você nunca se perguntou porque só em animes tem personagens gritando “EEEEHHHHHH” ou “AAAAAHHHHH” diante alguma surpresa antes de fechar a cena? É uma forma de expressar emoção dramaticamente), especialmente em sua antiga geração, que se identificava com esse espirito aguerrido. Animes e mangás sendo um meio onde as emoções tendem a ser ampliadas para efeito dramático, fazem dessas expressões onde se coloca todo o sentimento naquela exaltação, algo por vezes caricatural. Mas eu acho bastante divertido quando vejo esses personagens berrando e quase tendo uma parada cardíaca de tanta excitação, eu me sinto ainda mais envolvida e com vontade de também colocar para fora aquela emoção. É por isso que entoamos com tanta paixão palavras como JOOOOOOOOOOOOOOJOOOOOOOOOOO, DIOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO, KAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAJIIIIIIII. Isso significa que há uma boa conexão entre a obra e sua audiência.

O mangá original de JOJO é de 1987, época em que o battle shounen atual começou a despontar, mas ele sempre pareceu ter um valor estilístico singular ao mesmo tempo em que sua arte e narrativa emulava a escola de Hokuto no Ken – ao menos, é a impressão que ficou em mim. Enquanto assistia o anime de 2012, em meu primeiro contanto com a obra, fiquei pensando qual teria sido a intenção do autor na época. Digo isso porque JOJO me soa autoconsciente em seu exagerado melodrama, expressões, nas ações afetadas dos personagens e na forma como utiliza o tropo de battle shounen. A narrativa é empregada de modo satírico, mas as tramas se desenrolam na forma mais clássica possível. Além do mais, a violência, o melodrama que envolve a figura trágica do herói, a rivalidade entre dois homens que extrapola todos os limites, o orgulho masculino, a mulher sempre em segundo plano, o coração da donzela e enfim, a testosterona evaporando pelos poros é uma das características marcantes da década de 80, elevado por ícones do cinema MACHO americano. É bater o olho e perceber que JOJO não apenas é uma obra oldshool, como também faz disso o seu alicerce de sustentação. Parece refletir os gostos do seu criador, abrangendo uma gama de influências fantástica.
E é ai que seu autor acerta ao estabelecer uma narrativa que sabe tirar sarro de si mesmo e se divertir com isto, é a satirização que faz com que a obra não soe datada e com uma narrativa leve. Afinal, as tramas que compõe o cenário de JoJo's Bizarre Adventure são densas e pesadas, se analisadas com frieza, mas na forma como o autor emprega sua narrativa, elas se tornam over ao ponto de você não encarar com tamanha seriedade, embora ele demonstre respeito por essas tramas e seus personagens imprimindo urgência dramática em suas ações – é por isso que eu, você e acredito que muitas pessoas, possam comprar os conflitos e motivações dos personagens, pois há conexão! É dessa conexão que surge a fervura no sangue e a dificuldade de se assistir a série passivamente. E bem, eu gosto muito de como o autor sabe tirar proveito desse elemento cômico. Falo disso mais adiante.

Adaptado do cultuado mangá serializado na Weekly Shonen Jump de 1987 a 2004 (passando então para uma revista mensal, de onde já passa de 100 volumes), JoJo's Bizarre Adventure narra a história da família Joestar em suas aventuras bizarras que atravessam várias gerações, com uma diversidade enorme de ambientes, que podem saltar de uma Inglaterra vitoriana à um Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, atravessando países e muitas gerações em poucos arcos. Cada arco abrange uma geração da família Joestar, o que faz a história se sentir sempre revigorada e diversificada. É interessante, essa formula é uma gama de possibilidades para seu autor, como por exemplo, ele pode encerrar a saga da família Joestar num futuro tecnológico, contrastando com o primeiro arco que se passa em 1880!
O primeiro arco de JOJO, denominado Phantom Blood, ao contrário da opinião de muitos, para mim foi o melhor, o que mais gostei. A trama que estabelece o conflito que irá envolver diversão gerações e muitos protagonistas e personagens é a que possui os conflitos mais palpáveis. Também, dessa primeira temporada, é a que possui a dupla mais carismática e com melhor desenvoltura. Jojo (Kazuyuki Okitsu) e Dio (Takehito Koyasu) estabelecem uma dualidade antológica, propiciada pela excelente química entre os dois personagens, que incendiavam a tela toda vez que o ecrã capturava a imagem dos dois. Jojo e sua ingenuidade angustiante é um bom mocinho, bom até demais, no entanto, ele supera suas fraquezas e aprende através da dor e das traições a ficar cada vez mais forte e esperto; mas o charmoso e manipulador Dio Brando com suas poses extravagantes e sotaques afetados, roupas estilosas e torneadas no seu corpo virial bem definido é o que me fazia ovular e sentir um fogo queimando de baixo pra cima. E eu sei que não estou sozinha nessa, não só as mulheres, mas vários machos por ai também sentiram o mesmo, eu sei que heterossexualidade não existe quando Dio está bem na sua frente. O cara era um mal caráter, canalha, mas todos se deixaram cair na sua lábia.
Isso só foi possível porque Jojo foi o extremo oposto – e não que ele fosse um personagem ruim, afinal, suponho que a maioria torcia por Jojo assim como eu – e por eles se completarem, é como se fosse um yin e yang. O drama trágico de Jojo foi, de certo modo, comovente e digno de todo afeto, e Dio, por mais caricatural que fosse é uma vilão que tem camadas humanas, e, portanto passível de compreensão. É por essa boa construção de conflitos que o episódio final da primeira parte desse arco é emblemático e com uma atmosfera inebriante, com direito a Jojo e Dio andando sobre as paredes e teto de uma mansão em chamas, travando um duelo sangrento, sambando na cara da lei da física. Compreensível toda a fúria de Jojo, já que Dio é um vilão inescrupuloso e deliciosamente sádico. O cara foi capaz das piores barbaridades possíveis, como... Como... tirar a virgindade da boca do interesse romântico de Jojo! HAHAHAHAAHA

É desse nível de alopração que falo, o autor cria esse tipo de situação, em que um simples beijo se transforma num conflito melodramático que irá separar por anos o herói da mocinha. Mas até isso é bem pensado, porque se trata de uma época em que essas eram tradições e tabus culturais que poderiam denegrir para sempre o futuro de uma mulher, que deveria se manter donzela em todos os sentidos para o seu prometido. O autor aproveita essa multidiversidade cravada em cada período histórico em que a história se passar para tirar o melhor proveito possível de determinadas características da época. No segundo arco, Battle Tendency, por exemplo, há um exercito nazista estereotipados, boçais e incompetentes, embora se achem superiores. O autor dá um jeito de zoar com todos, chegando ao ponto de transformar um deles em uma ciborgue (acreditem, estou dando gargalhadas nesse momento) que só aparece para ser estraçalhado!
Battle Tendency é o ponto fraco de JOJO 2012 (embora muitos irão discordar de mim, afinal, é o arco com maior porradaria e ação), com menos equilíbrio e alternando mais entre bons e péssimos episódios, ótimos momentos e momentos medíocres. O motivo? Apesar de ser um arco que expande o mundo, traz novos personagens e entrelaça diversas tramas do presente e do passado, Battle Tendency é extremamente repetitivo, com tramas espichadas desnecessariamente. Joseph Joestar (Tomokazu Sugita), a principio, é um bom personagem e o completo oposto de Jojo. O que teoricamente é ótimo, e além do mais é um personagem com a fraqueza e o bom coração de Jojo, mas com o carisma e a malandragem de Dio, ingredientes bem vindos numa sociedade que é diferente da anterior e traz consigo os problemas que são muito mais comuns na sociedade moderna, como quadros familiares alterados/quebrados.  Esta que é uma dádiva dos tempos modernos que o autor captura perfeitamente (dica: A Relação Entre Pais & Filhos nos Animes).

Porém, Joseph não tem bons rivais, e quando os encontra, eles são bons demais... Mas tão bons e tão superiores, que para Joseph vencer se faz necessárias diversas trucagens, e se a principio a malandragem e esperteza do personagem faz a diferença e suas vantagens soam naturais, com o passar do tempo as situações que envolvem ele contra deuses (isso mesmo, deuses!) vão se tornando cada vez mais implausíveis dentro do contexto estabelecido. O roteiro se vê na necessidade de diminuir gradativamente, mas de modo perceptível, a diferença entre eles, o que francamente foi absurdo e nem mesmo a desculpa satírica consegue salvar esse desenrolar. Em nenhum momento se nota plausivelmente o crescimento do poder de Joseph, é o inverso, são os deuses que parecem diminuir inexplicavelmente.
Claro, não entro no mérito das cenas de batalha serem ou não empolgantes, porque a grande maioria são de tirar o fôlego. Há diversos momentos singelos como a amizade de Joseph com Caesar Zeppeli (Takuya Sato), algo que começa com uma intricada rivalidade e vai se tornando uma densa amizade de aflorar a pele, algo bem típico do battle shounen. Também é típico a honra entre rivais, e Joseph encontra alguns pelo caminho que tornam o seu desfecho algo um tanto quanto emocionante, por mais estranho que possa parecer, se tratando de JOJO. A própria luta que antecede o final, entre Joseph e um deus é de um desfecho alucinante de corroer o coração e fazer com que torcemos ainda mais por ele na luta final. O primeiro deus místico tem suas fraquezas bem exploradas, enquanto os outros são descritos como um poder colossal em que o simples vento poderia cortar um ser humano, só lutavam à noite, e teoricamente invencíveis, um duelo justo com tais seres é algo que um cara inexperiente como Joseph não conseguiria sair em vão, sem auxilio, mas acaba que todo os personagem são mais como escadas e é ele quem resolve tudo que precise/possa ser resolvido no braço.

Diferente do duelo entre Jojo e Dio, em que mesmo quando este ganha poderes sobrenaturais, é ainda humanamente alcançável e com emoções humanas capazes de o trair. Enfim, poderia ainda somar na lista negativa de Battle Tendency a forma humilhante como um personagem do nível de Lisa Lisa (Atsuko Tanaka) é retratada pelo roteiro. Não bastando sua derrota vexatória e sua subutilização [a despeito de toda pompa que a narrativa faz questão de propiciar a ela], a personagem ainda é humilhada e fragilizada ao se ver nua e indefesa, tendo que contar com o auxilio de dois marmanjos. Por um lado é compreensível que mulheres não tenham destaque ou mesmo voz ativa na narrativa, seja por questão de contexto histórico ou por questões editoriais e demográficas que limam de personagens femininas sua individualidade, porém, a escrita para a personagem de Lisa Lisa não faz o menor sentido. O autor a descreve poderosa e enaltece suas qualidades, mas quando é necessário colocar isso em prática, ignora o que fora dito anteriormente, a tratando como uma incompetente e patética mestre, porque é assim que Lisa Lisa é desenvolvida. Que me desculpem os fãs, mas ela só tem pose, no fundo, não difere nada de uma Saori Kido (Cavaleiros dos Zodíacos) ou Asuna (Sword Art Online). Por mais que tenha justificativas editorais ou demográficas, narrativamente é contraditório e pobre. E é só uma das muitas crises de Battle Tendency, que ignora o que lhe convém.
Bom, não deixei muito espaço para comentar a parte técnica, mas todo mundo que assistiu sabe, e quem ainda não viu, eu digo que foi uma adaptação feita com paixão por uma staff fã do mangá original, como comenta o diretor nessa entrevista. É perceptível o esmero desde a escolha da arte visual à trilha sonora. Segundo o diretor Naokatsu Tsuda, ele consultou diretamente o autor original Hirohiko Araki, perguntando-o que tipo de musica ouvia na época que elaborou os primeiros rascunhos do mangá, no qual este fez uma lista e entre ela, estava Roundabout, da banda Yes – essa música, que é um dos clássicos do rock, se alinhou tão perfeitamente à atmosfera de cada encerramento, que até parece ter sido composta especialmente para o anime que estrearia 41 anos depois: eles ainda fizeram várias versões, ora utilizando apenas o instrumental, ora alterando os tempos da nota, que por vezes ressoava melancólica, outras vezes enérgica.
Para a abertura, como tinham muito pouco tempo, mas queriam algo diferenciado, a fizeram em 3DCG utilizando um programinha gratuito chamado LightWave 3D, e apesar do tempo escasso, fizeram um excelente trabalho de composição, aplicado algumas camadas desenhadas em 2D e emulando a estética de uma revista em quadrinhos. Aliás, este é um dos aspectos que mais amo o anime de JOJO: sua composição visual. As onomatopeias, que são utilizadas no audiovisual para dar peso dramático e gravidade, as texturas típicas de animes oldschool que casaram muito bem a narrativa da série. Animes com baixa animação tendem a usar muitos recursos estilísticos para compensar os poucos frames, alguns chegam a se parecer com um “mangá tv”, é o caso de Kill la Kill, por exemplo, apelando para estética de quadros bem desenhados e estáticos/ as vezes tremidos. No caso de JOJO, a experiência realmente soa com uma paginação de quadrinhos, o que achei muito bonito. O que Naokatsu Tsuda fez foi um trabalho que vai além da simples adaptação de seguir quadro a quadro do mangá, ele buscou traduzir a série para uma nova mídia, lendo e buscando referências, ao invés de simplesmente replicar o que o autor fez. Isso certamente fez uma boa diferença no que se vê em cena.

Nota: 08/10
Direção Geral: Kenichi Suzuki
Direção: Naokatsu Tsuda
Roteiro: Yasuko Kobayashi
Episódios: 26
Tipo: TV



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