terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Rurouni Kenshin: Kyoto Inferno - Live Action

Saudações do Crítico Nippon!


          O primeiro filme de Rurouni Kenshin funcionou muito bem. Mantendo a essência perfeita de seus personagens bem como a aparência física (esse último item bastante modificado nessas adaptações) e investindo nos pontos fortes que tornaram o mangá um sucesso, era fácil agradar fãs e leigos. Embora, como dito em meu texto passado “Funciona, sim. Porém, peca pela longevidade e excesso de material”, sua continuação tem o exato mesmo problema. De qualquer modo, suas virtudes se destacam mais que as do anterior e o universo parece realmente expandido.



           A trama inicia apresentando o vilão da vez, Makoto Shishio, uma espécie de Battousai ainda na ativa que, traído pelo governo na guerra, visa derrubá-lo nos tempos de paz. Com os esforços da polícia em impedi-lo sendo completamente em vão, o Ministro não vê escolha senão pedir ajuda ao Battousai aposentado, Kenshin, que agora vive pacificamente sem matar ninguém há mais de uma década.

            Prevalecendo-se de uma trama muito mais interessante e consistente que a do anterior, o filme não perde tempo em colocar as peças em movimento. E ainda que na maior parte do tempo estabeleça um ritmo de urgência inexistente no filme passado, constantemente tropeça no excesso de conteúdo travando uma narrativa que poderia ser ainda mais veloz. Ainda assim, é bacana notar a direção segura de Keishi Ohtomo em construir um filme que é o “meio” de uma trilogia, mas narrativamente competente com introdução, meio e final. E é interessante momentos de contraste como aqueles apresentando Shishio repleto de chamas e escuridão, intercalando com a cena seguinte em que revela os velhos personagens em um ambiente alegre em cores serenas.


            Estabelecendo o crescimento de laços entre todos, Ohtomo concentra os primeiros minutos a mostrar como seguiu a vida de nossos heróis, com economia e eficiência. Presenciamos Kaoru voltando a dar aulas no dojo, bem como os alunos interessados em serem treinados por Kenshin, Sanosuke tentando se oferecer no lugar, e Megumi convivendo pacificamente após o transtorno com o ópio. E é fácil notar como os atores estão extremamente à vontade em seus papéis. Takeru Sato como o protagonista continua com sorriso e olhos serenos que transmitem uma imensa segurança e tranquilidade, por trás de um homem que já viu de tudo no passado. E seus momentos em batalha com os olhos cerrados e voz rosnada, refletem no espectador quão grave é a situação. Já Munetaka Aoki parece ter caído como uma luva em Sanosuke, divertidíssimo como o adorável canalha que aprendemos a gostar. E a maneira sutil e desleixada com que gesticula com a mão, de costas, desafiando Aoshi diz tudo sobre seu personagem. Já Kaoru (Emi Takei) e Yahiko desempenham bem a dinâmica de quase irmãos em suas divertidas discussões.



            Contando com uma direção de arte ainda mais ambiciosa que o anterior, os cenários estão ainda melhores. Desde a ponte sobre um mar de chamas em que Saito e Shishio conversam, passando pelos eficientes vilarejos destruídos. Culminando em uma Kyoto imponente digna da expectativa que provoca, servindo de palco para uma batalha que se torna ainda mais grandiosa devido ao ótimo cenário. A trilha sonora, aliás, se mantém igualmente mais excepcional que no filme anterior, ajudando a construir o clima da história, sem a necessidade de comentar passagens engraçadinhas e chamar atenção por si própria.


       Porém, o filme mantém sua parcela de fan service que prejudica em muito as boas decisões. Assim, Aoshi praticamente cai do céu no pior momento possível, logo após uma cena contemplativa de Kaoru expressando saudades. E a luta entre ele e Sano deixa muito a desejar e termina sem resolução alguma, servindo apenas para agitar um pouco a narrativa. E bastaria esperar poucos minutos para vermos a divertida perseguição entre Kenshin e Misao, interpretada com energia pela Tao Tsuchiya. E o flashback em que vemos as “origens” de Shishio é surreal de tantas espadas enfiadas em seu corpo, somado com as queimaduras, e tendo conseguido sobreviver (e, teoricamente, ainda sendo mais forte). E momentos de extremas coincidências como Kaoru encontrando Kenshin facilmente em Kyoto; e Kenshin quase que por acaso se envolvendo na luta em que o bebê está sendo feito de refém. Este confronto, aliás, que apesar ter sido coreografado com eficiência, a sensação é de que a situação foi prolongada mais do que deveria.


Outros equívocos tremendos são nos momentos após o Ministro pedir para Kenshin pensar se quer ajudá-lo contra Shishio, pois as cenas seguintes beiram o melodrama. Imediatamente vemos mulheres e crianças vítimas do vilão chorando em câmera lenta (totalmente over) e o herói as observando pensativo; aí o Ministro é assassinado e chamam o herói para contar; mais tarde, Kenshin chega a encontrar no meio da estrada uma vítima caída do céu e logo em seguida adentra em sua vila destruída. Não poderia ser mais formulaico e óbvio. É importante, sim, vermos porque o inimigo precisa ser abatido, mas não de maneira tão brusca e forçada. Aliás, seria muito melhor a estratégia vista no filme anterior, em que realmente víamos o vilão Udo Jin executando sua carnificina pessoalmente.



Tentando resgatar personagens do agrado dos fãs, às vezes com sucesso e outras não. Aoshi (Yusuke Iseya), por exemplo, jamais ganha peso ou profundidade, revelando-se quase um androide cujo único objetivo é lutar. Consequentemente, fica impossível sentir o amor de Misao por ele. Já Yosuke Egushi como Saito ganha muito mais espaço neste filme, e merece todos os créditos por torná-lo um homem multifacetado e uma figura de peso imponente ao lado do próprio Kenshin. Já o Soujiro de Ryunosuke Kamiki trás com eficiência seu sorriso enigmático e torna-se um dos poucos personagens que realmente tememos. A luta dele, aliás, é a melhor de todas e supera em muito a do clímax do filme passado. E chegamos ao Shishio de Tatsuya Fujiwara (mais conhecido pelos papéis de protagonista em Death Note e Battle Royale) que faz uma boa voz carregada e ar sempre intenso, embora seu tempo em tela seja sacrificado em prol dos demais e provavelmente só teremos um vislumbre melhor de sua performance no filme seguinte. 











Trazendo inúmeras referências diretas da obra original que deixarão os fãs extremamente satisfeitos. Desde as poses características de Saito até àquelas entre Soujiro e Kenshin, passando pelo mantra dos vilões de “O forte sobreviverá e o fraco irá sofrer”; até às mais sutis como os golpes triviais de Kenshin contra o loiro do grupo Juppongatana, iguaizinhos aos do original; até as histórias de Saito de quando era do Shinsengumi, impedindo um grupo de incendiar Kyoto na batalha da hospedaria Ikeda. 




 Chegando a um clímax absolutamente empolgante em uma guerra no centro de Kyoto, envolvendo o exército de Shishio, os policiais de Saito, o grupo de ninjas Oniwabanshu, e claro, o grupo de Kenshin e seus amigos. Ganhando ainda mais peso por usarem inúmeros figurantes reais ao invés de multidões com efeitos especiais. E o diretor Ohtomo é hábil o bastante para mostrar as ações de todos esses grupos e personagens individuais, de forma clara com golpes compreensíveis para o espectador, sem nunca se tornar confuso, o que é uma proeza digna. Trazendo alguns equívocos como Kaoru e Yahiko derrubarem tantos capangas com golpes bastante duvidosos, bem como todo o aborrecido sequestro final de Kaoru e a batalha no navio. Servindo como um artifício barato para fazer Kenshin e Shishio se encontrarem (mesmo que nada aconteça, realmente) e resgatando essa situação desagradável que tanto ocorreu no primeiro de “mocinho-salvando-a-mocinha”. Embora esses pecados sejam compensados por acréscimos inteligentes que não aconteciam no original, como um grupo de fantasiados de Shishios garantindo a passagem segura do original.



Assim, Rurouni Kenshin: Kyoto Inferno, apesar de mais longo do que deveria, é uma obra extremamente forte para a galeria de live actions adaptados de mangás. Obviamente não chega à perfeição de equilíbrio de um Speed Racer, mas certamente estamos muito próximos disso. E agora espero ansioso que encontrem o ritmo perfeito para o desfecho da trilogia. Os dois primeiros não deram motivo algum para decepção real e só podemos esperar que se mantenha assim. Certamente esses personagens divertidos repletos de acrobacias deixarão saudades.

 (Para mais dos meus textos, é só ir no menu 'Crítico Nippon'.)
@PedroSEkman

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