quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Kill la Kill: Distopia das Roupas

Vamos falar daquilo que molda a sua aparência e a relação conturbada que a linguagem das roupas tem com o corpo.
Continuando o tópico do post anterior (KILL la KILL: Fascismo Alienígena), a idiossincrasia de Kill la Kill é algo notável e em particular, o comportamento dos personagens quanto ao corpo e suas vestes sempre foi algo que me despertou particular atenção.  A começar por sua ambivalência em torno de algumas palavras, uma jogada muito sacana de Imaishi e Nakashima (diretor e roteirista), como a palavra ‘moda’ (Fashhon) que pode ser pronunciada em japonês com a mesma pronuncia de ‘fascismo’ (Fassho), ‘kiru’ que em japa tanto pode significar ‘matar/cortar’ (dando um significado especial à tesoura dentro da história e o mistério – já elucidado – em torno de si, que primeiramente levou à morte um ente querido de Ryuuko, entrelaçando-a em acontecimentos espirais, que “coincidentemente”, revelariam muito sobre ela mesma, que por fim, toma consciência da sua existência e provavelmente cortará o fio vermelho do destino com essa própria tesoura) como ‘vestir’ e o obvio ensejo da palavra seifuku e seu dualismo entre a palavra ‘uniforme’ e ‘dominação mundial’. 
Bom, já comentei sobre isso, aqui (KILL la KILL: O Poder do Uniforme Escolar) e aqui (KILL la KILL – Sexualidade Reprimida). O uniforme militar possui uma forte representatividade no contexto histórico japonês após a Segunda Guerra Mundial e sua inerente influência americana, que moldou definitivamente os rumos do país. Num pequeno país invadido por militares, em que aquelas figuras ameaçadoras e uniformizadas passaram a fazer parte do cotidiano – onde até mesmo os uniformes escolares foram remodelados de modo a assimilarem o militarismo – é natural que não vissem a face de homens, mas uniformes sencientes (afinal, essa é a ideia: ter a mesma forma, serem idênticos). Logo, as alusões ao fascismo no contexto da série, se permitem o uso banalizado da palavra, foi uma epifania genial do Nakashima (créditos a ele, que conseguiu pegar um conceito repleto de clichês e previsibilidades que originalmente se consistiria apenas numa espécie de parodiações do battle shounen e afunilar substância).

É um assunto atual, que foi atual, e que continuará sendo enquanto existir humanidade, atemporal. Como diz o ditado popular, a roupa é a nossa segunda pele. Na evolução do estado primata para o socializado, as roupas passaram a remeter a indumentárias especificas que estabelecidas pelo código social, pune com rigidez aquele que não segue a etiqueta social imposta pelo novo estado. 
Eu só escrevi esse texto por causa dessa imagem da Christa, à esquerda. Na época, até escrevi algo sobre de tão apaixonada que fiquei pela imagem e sua expressão, e nem acredito que os deixarei ler isso: Eu achei esse vestido da Christa tão maravilhoso, mas apesar de lindíssima, ela está com uma expressão tão distante. São olhos que evidencia que seus pensamentos estão distantes, naquele alguém que sabemos quem. O sol nasce esbelto e se põe poético todos os dias, independente se tem alguém lhe admirando ou não, as flores nascem e se tornam lindas, morrem alguém as apanhando ou não. Mas nós queremos ser vistos e admirados. Você se veste com a melhor roupa, quer estar deslumbrante, apenas para que aquela pessoa possa te notar e talvez elogiar. É egocêntrico, mas se você quer ser a lua n céu para enfeitiçar os olhos do ser amado, é sinal de que está apaixonado, e se isso fosse um crime, e se fosse o caso, eu não me importaria de me declarar culpada.

Um tempo atrás, comentando no twitter que desci na portaria do meu prédio com a mesma roupa que acabara de me levantar – ou seja, naquelas – um colega comentou do caso de uma conhecida dele, que foi expulsa da padaria de um bairro nobre por estar usando pijamas. Pode parecer que nunca se discutiu tanto sobre roupas e gêneros quanto atualmente, mas a cada geração sempre se discute a relação do sujeito e o modo de se vestir no meio social. Um tempo atrás explodiu nas redes sociais sobre o caso do funcionário que foi trabalhar de saia porque no prédio era proibido que homens entrassem usando bermudas. Alguns poucos dias antes disso, estudantes de uma faculdade protestavam a favor do direito de homens usarem saias sem serem rechaçados socialmente. Nesse ínterim, se esquentou a discussão em torno dos direitos igualitários nos ambientes de trabalho: no caso em questão, pede-se a adesão de empresas para aceitarem que os homens possam ir trabalhar de bermudas, uma vez que as mulheres possuem o direito de irem de saias. Pode parecer algo novo, mas se no século XIX a bermuda era associada a garotos, no século seguinte ela passou a ser amplamente adotada por homens adultos, chegando ao novo milênio com status elevado entre membros da alta sociedade, não sendo mais associado com exclusividade a homens da classe mais pobre.

A moda define tendências e explora a identidade do sujeito através do uso dessa segunda pele. Olhando pelas lentes certas, é perceptível o quão estreita é a relação entre moda e fascismo, que nos é condicionada desde o nascimento. 
Nas origens do Homem, este buscou na pele de animais um modo de se proteger contra o frio, de perigos eminentes do cotidiano primitivo e para fins de caça. No berço da humanidade, as pessoas de castas baixas e escravos andavam quase ou completamente nus, enquanto as castas mais altas usavam tecidos bem desenhados e alinhados, de acordo com a estação. Nascia não apenas o senso estético, mas a segregação de classes sob a ótica dos signos das indumentárias, que passa a demarcar papéis e lugares sociais [e culturais] (sacerdotes, chefes, guerreiros, nobres, plebeus, homens, mulheres, burguesia, proletariado, etc).

É como se a roupa tivesse vida própria e impulsionasse a ambição e criatividade humana desde o momento que pela primeira vez se usou pele de animais para que seu cheiro de sangue fizesse sua presença passar despercebida pelas feras, não tardando a descoberta de sua eficácia na proteção contra o frio. Uma simbionte a partir de então indissociável.

A pele sempre fora associada à indumentária, desenvolvendo através de pinturas e perfurações diversos signos de uma linguagem que identifique o sujeito na sociedade. O corpo passa a ser uma tela humana onde qualquer humor ou ideologia poderia ser expresso. As roupas, a moda, vieram como um adorno perfeito, uma mascara definidora de personalidades e teatralidade de arquétipos. A roupa passa a ser uma armadura brindada, uma concha que te protege da exposição social, sinônimo de poder.

"Os humanos são seres tão frágeis. Quando estamos nuas assim, o nervosismo domina. Faz querermos cobrir os nossos corpos nas maravilhas conhecidas como roupas" Ragyo 
Se você estudou revolução industrial, deve saber como esse pensamento ficou muito mais imponente depois disto. A moda possui, entre outras facetas singulares, a busca pela individualidade e a necessidade de integração (a Ryuuko é um bom exemplo neste processo). É assim que nasceu as tribos urbanas; com roqueiros sentindo a necessidade de virar as costas para aquele sistema de etiquetas estilísticas e expressando sua rebeldia e insatisfação com um estilo unicolor e desalinhado, e hippies que simbolizavam sua ideologia contrária à guerra com roupas simples de branco e algodão. A corrida espacial entre Estados Unidos e Rússia na década de 1960 que estimularam estilistas a criarem roupas revolucionárias que provocaram furor na sociedade, com a mistura de tecidos com fibras sintéticas derivadas do petróleo e design espacial metalizado (imortalizados pelas modelos e artistas da época). Os anos 1970 que sugiram transitórios no embalo da segunda onda feminista com as mulheres querendo se vestir iguais aos homens e o surgimento do estilo unissex. Décadas antes a sociedade ainda passou pela revolução das cores, onde com as indústrias precisavam fazer com que as pessoas consumissem mais, e por isso passaram a adotar cores distintas para cada gênero, abortando, por exemplo, o rosa para garotos e azul para garotas, invertendo os costumes.

O vestir e a moda são intrinsecamente relacionáveis, e tal quais universais, mutantes e com personalidade própria. Moda e corpo expressam tanto uma palavra escrita ou uma pintura. Essa sinergia é a responsável por fomentar o fenômeno da moda e dos costumes culturais, que dita o que você deve ou não vestir e vai se transformando de acordo com sua posição sociocultural. 
Em Kill la Kill, o roteiro tenta jogar com a ideia de que as pessoas estão sendo escravizadas por esta roupa fascista. A resistência liderada pelo Nudist Beach defende a ideologia de que os seres humanos só são verdadeiramente livres quando abnegam de suas vestes. Em determinado episódio, a alpinista família Mankanshoku tem a chance de subir na vida e passam a ser completamente dominados pela ambição sem limites, sendo reprovados por Satsuki, que desde o começo manipula a situação apenas provar seu ponto de vista de que pessoas são facilmente corrompidas quando recebem poder em suas mãos (os uniformes com Fibras de Vida/Life Fibers), chegando a oferecer um uniforme para Mako duelar contra Ryuuko, caso esta quisesse manter seu estilo de vida. Só que a prosperidade cobrou seu preço com a desunião familiar (a dificuldade une as pessoas e a abastança lhes traz a necessidade do individualismo ), e no final, eles renegam o poder oferecido despindo-se daquelas roupas símbolo da prosperidade e escravismo e saem correndo, agora livres, felizes e desinibidos.

A moda traz consigo o paradoxo de individualidade e a necessidade da integração social, assim como a própria sociedade japonesa (Shingeki no Kyojin representa bem essa dualidade, como aponta este artigo). Ryuuko não consegue se encontrar nem se sincronizar com Senketsu enquanto não começa a abraçar sua individualidade, não mais se envergonhando da forma curtíssima que seu uniforme ficava após a transformação, deixando partes intimas do seu corpo expostas ao voyeurismo. Ela começa a aceitar sua individualidade, ou seja, que ela é um corpo diferente naquela comunidade e que, obviamente, chama a atenção dos demais. Ao parar de se preocupar/envergonhar com suas roupas e a atenção que elas chamavam para si, Ryuuko consegue se conectar espiritualmente com Senketsu, extraindo o máximo de poder das Fiber Lifes. 
É a mesma disposição de Satsuki, que se centra no seu objetivo e ignora o carnal. Em ambos os casos, a hiper sexualização objetificada em Ryuuko e Satsuki quando elas estão vestindo seus uniformes transformados, expõe o quão nocivo é o condicionamento à simples peças de panos que, cobrem pouco, mas o suficiente para deixar uma pequena margem de curiosidade com seu design fetichista. Na evolução da humanidade e das roupas, apenas o corpo desnudo já não satisfaz mais, as pessoas querem ter suas fantasias estimuladas e as roupas íntimas passam a ser desenhadas com o intuito de estingar o prazer das zonas erógenas. E então, quem tá seduzindo é a roupa o corpo que a traja? É uma relação simbiótica afinal de contas, um corpo estimulante com peças íntimas piegas pode ter o efeito inverso em alguns, e um corpo que não desperta a libido com peças sedutoras, também pode ocorrer o oposto do esperado. 
Verdadeiramente livres não serão aqueles que independem da roupa para manter uma vida sexual plenamente ativa e diversificada?

O Japão, depois da influência americana e com as censuras impostas ao sexo no entretenimento, criou uma indústria soberana do fetiche sexual, motivo este de, por exemplo, o swimsuit; os próprios uniformes escolares, o Zettai Ryouiki (que surgiu com Evangelion), serem algo tão popular por lá na indústria do entretenimento. Um pedaço de pano que faz toda a diferença e sexualiza mais do que a simples nudez.
As colegiais, que transformaram e mudaram para sempre a indústria de consumo japonesa, ainda na década de 1980, transformando o outrora recatado uniforme escolar em um PRODUTO erotizado que lhes atribuiu a individualidade tão sonhada.

Da revolução industrial até os tempos atuais, as roupas foram sistematizadas a tal ponto, que elas se tornaram também uma arma para se lutar contra o sistema. As colegiais japonesas insatisfeitas com a uniformidade, se rebelaram rasgando, encurtando e mostrando muito, mas sem expor tudo, chocando a sociedade e atraindo a atenção que tanto desejavam. Os artistas se rebelavam contra a censura social (esta muito mais opressiva que a oficial, do governo) com violência e sexualização em materiais destinados às crianças. O sutiã se torna símbolo de libertação e depois de opressão; são queimados por mulheres reivindicando direitos iguais. O Pin Up surge objetificando mulheres e ao mesmo tempo sendo a oportunidade frente ao descontentamento e impossibilidade de muitas atingirem os ideais impostos pela moda, sem a ditadura da silhueta perfeita. A partir de então, mulheres de variados tamanhos robustos puderam exibir sua sensualidade dentro do fenômeno Pin Up, ainda que causando desconforto social. Por não exigir um corpo perfeito e representar a libertação de diversos paradigmas, o feminismo se tornou um forte pilar da cultura e atitude Pin Up.
Pode parecer contraditório, mas como o corpo da mulher sempre fora sexualizado e até considerado como algo sagrado e casto, ao se despirem das roupas que escravizam e demarcam papeis hierárquicos, estão dizendo à sociedade que controlam o próprio corpo, que eles são seus, não bens da comunidade. O ato de mostrar os seios, símbolo de feminilidade e maternidade (e que sempre gera controvérsias diversas) é um gesto de pegar o ícone de mercantilização e exploração feminina e lhe dar um sentido de revolta e emancipação. A própria sexualização do corpo pode se tornar uma arma para evidenciar algo que cause repudio em velhos dogmas, embora essa seja uma palavra constantemente negativada.

Na sociedade civilizada a nudez é ultrajante. Faz-se necessário o mínimo de roupa que seja. Mas elas logo ganham vida própria, conferindo poder ao seu portador. No primeiro cour de Kill la Kill, isso é mostrado com extremismo, e supreendentemente, no segundo cour este tom desaparece por completo, deixando de focar nos closes ginecológicos para então conferir um plano amplo no perfil das personagens. Isso não quer dizer que Kill la Kill é uma série pró-feminismo, como vi alguns afirmando, eu diria que é muito pelo contrário. A série apenas está trabalhando seu argumento de que roupas são espécimes alienígenas não naturais ao corpo humano, e que ao adorná-lo, está ampliando sua capacidade de SER (visto os arquétipos que uma pessoa incorpora e as portas que lhe são abertas com um simples modo de se trajar), mas também restringindo a sua liberdade. 
Satsuki sente-se desprotegida e frágil ao se desnudar para sua mãe, aludindo ao aos sentimentos mais primitivos de medo e desconforto, ao passo que o contato com a sua intimidade é o que lhe propicia um prazer extremo capaz de restabelecer suas forças internas. Ryuuko enfim atinge o seu pico de sincronia com Senketsu quando olha para dentro de si mesma pela primeira vez e encontra o motivo para ser forte e continuar lutando, não no seu eu individual, mas na integração com aqueles que estavam ao seu lado e que de algum modo significavam alguma coisa para ela (algo que valia a pena proteger). Satsuki não tem particularmente algo a proteger, mas busca honrar a alma daqueles que amou com um golpe de estado sobre sua mãe, símbolo máximo de alguém que abandonou a humanidade para abraçar imortalidade das Life Fibers. Agora, tem a chance de se reintegrar ao social. Essa dicotomia entre a busca pela individualidade e a necessidade da integração social é um dilema presente no próprio modo de vestir. Você rejeita o que lhe é imposto pelos padrões sociais, mas também é incapaz de lidar com a solidão, fazendo com que se encontre em tribos urbanas/grupos que adotem um uniforme que expresse nos panos a sua ideologia.

No fim das contas, o ser humano condicionado a civilidade não conseguiria abrir mão das maravilhas da sua revolução tecnológica, e sempre insatisfeita, vai procurar se expressar com o corpo. Porém, eu acho  que a série nos diz sobre a necessidade de tomar consciência de si mesmo e de determinações internas solidas, para não se perder na efemeridade das personas impostas pelas roupas. A roupa por si só é apenas uma peça, um artigo qualquer, se o seu significado não for acompanhado da substância (o corpo). Assim como as Life Fibers. 

Leitura Complementar:
-Sob o Domínio das Colegiais (Shoujo Café)
-O Discurso da Direita em Shingeki no Kyojin (Nihon Go)

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