domingo, 4 de setembro de 2011

Shiro no país das Maravilhas: Bem vindo à Deadman Wonderland


O que, Deadman Wonderland e Highschool of the Dead tem em comum, além de serem direcionados a certo nicho do público?  Suas respectivas adaptações para anime. Pode ser dizer o que for sobre essas adaptações, questionável ou não, elas elevaram os nomes dessas duas séries para todo o fandom de animes, que não necessariamente estão sempre antenados com os hits classe b de séries de mangá. Com isso, a base de fãs aumentou consideravelmente e a Panini sempre sabe muito bem como se aproveitar disso e assim, Deadman Wonderland chegou a nossas bancas, para alegria dos fãs do mangá e para os que apenas apreciam o título.

Deadman Wonderland é um mangá shounen com roteiro de Jinsei Kataoka e ilustrado por Kazuma Kondou, os mesmos do mangá Eureka Seven, que nada mais é que uma adaptação do anime original homônimo, um projeto do estúdio de animação BONES. Por isso, são duas séries completamente distintas entre si. Atualmente, DW se encontra no volume 11 e está no auge de sua história e apesar de rumores sobre seu possível fim, ainda demonstra folego para mais alguns volumes. É publicado pela revista Shonen Ace, da editora Kadokawa Shoten, uma revista que procura explorar um lado, como posso dizer... mais cult do gênero shounen, com publicações com enfoque num publico mais restrito, como o mangá Bem-vindo a N.H.K.! ou MPD Psycho. E é dai que talvez, venha o feeling do mangá de às vezes – querer – aparecer uma história mais adulta do que realmente é.


É a velha trama adolescente e serão estes que encontraremos em DW, ou pelo menos em sua maioria em que a história girará em torno. Crises na adolescência? Veremos isso em Ganta, protagonista da história, que terá que aprender aos trancos e barrancos a se adaptar ao seu novo estilo de vida. Mortes, sangue, garotas lindas e cheias de curvas com crises de identidade, dupla personalidade, tomboys, G-Cup, psicopatas adoráveis, palavrões e uma diversidade de palavras de baixo calão são as mais básicas características de DW.

Abrem-se os portões da Deadman Wonderland

Dez anos apôs um terremoto que varreu Tóquio dos mapas nipônicos, surge a primeira prisão do Japão, de iniciativa totalmente privada com um suposto motivo de promover a restauração da cidade. Mas a coisa é muito mais escusa do que aparenta e os objetivos não são tão nobres, como descobrimos nos capítulos seguintes. DW além de uma prisão que abriga diversos tipos de criminosos, também funciona como uma atração turística, onde os detentos são os palhaços nesse grande circo dos horrores.


Inicialmente, acompanhamos as histórias de jovens afetados por uma misteriosa habilidade de manipular seu sangue, estes são denominados Deadmans. Eles não são apenas pessoas comuns com uma habilidade em comum, o sangue deles se transforma de forma imprevisível em armas letais. Mas nem todos em DW possuem essa habilidade especial, apenas alguns, os Deadmans, e estes, vivem no subsolo da prisão, no até certo momento, desconhecido Bloco-G. Então, acaba ocorrendo uma divisão bem irônica dentro de DW, entre os de “natureza boa” e “natureza ruim”. Leia-se o irônico como: “ali mais de 95% dos personagens, são de índole perigosa, doentia e manipulativa”. DW traz novamente à tona sobre a ótica de um personagem inicialmente inocente e puro, os humanos como criaturas maléficas e perversas. A história dá vislumbres do que há de pior na humanidade: a covardia. Mas já vimos isso antes, não é mesmo?


Deadman Wonderland é uma história de sobrevivência, aliás, mais uma história de sobrevivência. Dessa vez o cenário é dentro de uma prisão temática. A história tem o mesmo feeling de outras séries do mesmo segmento, como por exemplo, Mirai Nikki ou Battle Royale, mas ao contrário destes, DW não se desenvolve como um thriller e nem chega a ser melodramático e tão psicológico. A formula é shounen e a forma como tudo é conduzido, é hiper empolgante a agradável, além da história se desenvolver de uma forma bem ágil, principalmente na segunda parte do mangá, logo após o volume 05.


Embora, Ganta às vezes perde o rumo, ou até mesmo os outros demais personagens centrais possam parecer meras peças no tabuleiro, Jinsei Kataoka parece sempre saber aonde quer chegar com sua história, que tem como fio condutor e principal mistério do enredo, a relação entre Ganta e Shiro, uma garota albina de olhos vermelhos, além do suspense e virtual vingança que fica em suspense através do esperado embate dele com aquele que foi o responsável por tirar-lhe a liberdade, o “Homem Vermelho”. No fim das contas, DW é uma história sobre “amigo contra amigo”.

Ponto de Partida

No inicio da história, vemos em Ganta Igarashi, o típico adolescente despreocupado e vivendo uma das melhores fases da adolescência: a vida escolar ao lado de seus amigos numa Tóquio que tenta se reerguer do terrível terremoto que colocou 70% da cidade sob as águas. Terremoto este que, não é simplesmente jogado na história, parecendo que de nada terá serventia lá na frente, pelo contrário, ele é bem explicado e tem em suas origens, o maior segredo do enredo. Mas seguindo em frente, em mais um dia monótono e feliz, com seus amigos na sala de aula onde ironicamente, discutiam sobre a excursão que a escola faria á prisão de Deadman Wonderland, uma pessoa estranha com o rosto coberto por uma mascara e cheio de sangue, aparece flutuando na janela de sua sala e canta uma música peculiar. Uma música em rimas que Gata não lembra, mas já a ouvira em algum lugar – outro ponto interessante da história, é onde uma canção infantil com rimas bizarras sempre leva a história em torno de Ganta e o misterioso passado envolvendo ele e a estranha garota albina, de volta ao passado, seja indiretamente ou diretamente, através dos flashbacks.


Mas não há muito tempo para que Ganta pense a respeito, pois a estranha pessoa com um tipo de poder surreal mata todos os seus colegas presentes na sala de aula, de forma brutal, sobrando apenas ele. Para a coisa ficar ainda mais interessante essa estranha pessoa ainda coloca no peito de Ganta uma misteriosa pedra vermelha. Na verdade se trata de um cristal, que dá a Ganta habilidades de manipular o próprio sangue. Assim, ele se torna também um Deadman, mas o caminho até ai e pós sua nova condição não será fácil. Depois de uma jogada desleal de um dos principais articuladores de Deadman Wonderland, Tsunenaga Tamaki, Ganta é condenado rapidamente e logo enviado com sentença de morte marcada para a Deadman Wonderland.


Tudo acaba girando em torno do OVO MISERÁVEL, que é conhecido como o “Homem Vermelho”, a origem de todos os Deadman:. “Ele é o começo e o fim de todos os pecados, comédia e tragédia, força e fraqueza, vida e morte, amor e ódio, ele abrange todas as contradições... e eu amo isso.”

Capas versão japonesa

Mas a trama central fica sempre em stand-by, se desenvolvendo de forma mais lenta e unilateral. Isso é ruim? De forma alguma. Enquanto isso, vemos varias outras se formando e chegando ao fim. Nos primeiros cinco volumes, que abrangem a primeira parte da história e toda a adaptação da versão anime, vemos a difícil adaptação de Ganta em DW, seu entrosamento com os outros personagens e o modo de funcionamento daquele lugar que é uma mistura de prisão, com circo dos horrores e parque de “diversões”. Foco inicial principalmente nos jogos brutais que são promovidos naquele local. Dentre todos, o mais popular, envolvendo Deadmans: O Carnival Corpse, um duelo em um jogo de sobrevivência ou morte, transmitido on-line para um seleto grupo de pessoas.

Como tudo vai evoluindo

Mas não há realmente um foco restrito nesses duelos, a história segue uma linha linear e com desenvolvimento crescente. O autor faz umas jogadas incríveis e assim, pequenas reviravoltas vão acontecendo com o passar dos capítulos. A carga dramática também aumenta e o nível psicológico dos personagens é explorado ao máximo. Surreal, violento e cheio de humor negro, Deadman Wonderland, tem um time de personagens muito bons. Loucos, pervertidos, psicopatas, você encontra tudo ali. Em Senji Kyomasa, temos o típico anti-herói shounen, que acaba se aliando ao protagonista. Minatsuki Takami, minha preferida ao lado de Toto Sakigami, uma personagem com distúrbio e personalidade e incrivelmente charmosa no seu estilo doentio e pervertido, sempre com palavras chulas na boca. A oficial responsável por este hospício, Makina, uma sociopata e típica badass, que mais a frente acaba se destacando bastante.


Temos em Shiro a personagem chave da história, o par romântico de Ganta, com uma personalidade ingênua e amigável, esconde um lado sombrio em sua personalidade. Ganta não é o clássico herói que conhecemos, ele é pirracento e muitas vezes, ingrato e cruel com quem menos merece. Além disso, chorão pra caramba e fraco. Mas acredite ou não, essas são as melhores qualidades do personagem.


São bastantes pontos de interrogação que ficam boiando em meio aos capítulos, mas tudo se desenvolve e tende a terminar de forma impecável, como podemos já visualizar no arco final da história. Tal qual em Pandora Hearts, Deadman Wonderland usa a prisão de uma forma descrita como o inferno na terra. Um local onde a dor e o desespero são inevitáveis, todos possuem uma história meio triste e esperar por lógica e justiça, não é algo sensato a se fazer. Mas em cima disso, temos o velho clichê de contendo lições de amizade e companheirismo. Clichê, mas não deixa de ser legal. O humor negro também uma peculiaridade do roteiro, servindo como uma válvula de escape. “Loucura ou não, a reliadade é feita dos maiores absurdos.”

Comentando a edição da Panini

Ficou longo demais, não é? Mas bem, não posso finalizar sem comentar a edição brasileira de DW. Como sempre, o tratamento padrão que a editora Panini dá aos seus mangás, se não é o ideal, dentre do que temos no mercado brasileiro pode ser izer que é excelente. A tradução da Drik Sada, muito fluida, como já era de se esperar.  Também não há o que se questionar da edição da Débora Kamogawa. Contra capas com imagem coloridinha, mas no mangá é tudo em P&B mesmo e natural, já que originalmente DW não tem páginas coloridas, somente na revista onde é serializada e ai cabe somente á editora original autorizar o uso dessas páginas. No mangá, há diversos extras bem legalzinho e a Panini nos fez o favor de mantê-los. TODOS.


Mas tem uma coisa muito chata. DW usa uma linguagem extremamente de baixo nível, chula mesmo e isso é uma caraterística bem interessante da série. É normal você ver saindo da boca de personagens palavras como “puta”, “vadia” ou pegando um exemplo prático: “Eu adoro essa sua cara, acho que vou gozar”, palavras da Minatsuki, etc e tal. Imaginei que talvez pudesse acontecer de a Panini dar uma amaciada, deixar os diálogos menos agressivos, amenizando o humor negro. Seguindo a lógica que o Brasil tem uma quantidade incrível de puristas. Comentei no twitter, onde me deram exemplos de outras séries onde isso é bem caraterístico, mas a verdade é que em DW isso é muito mais acentuado e há coisas ali que realmente podem vir a ofender. Mas acho extremamente errado que uma editora edite e descaracterize qualquer fato da história original. O exemplo abaixo foi só o lado mais escrachado, onde fiz questão de conferir tudo pra ver se haveria realmente diferença, se há mais coisas, não olhei. Espero que nas próximas edições, a Panini reveja isso e pare de inventar o que não existe e que nem cabe interpretação.

versão da Panini
Versão de scans

Outro ponto é a Panini ter deixado em inglês, os apelidos que os Deadmans recebem em DW, uma tradução soaria muito bem e tornaria a leitura ainda mais dinâmica. Por exemplo, a letra da canção de rimas que embala os momentos de flashback ou interação entre Ganta e Shiro, faz todo um sentido com o apelido que ele recebe em DW. Deixar o dele traduzido, enquanto os dos outros estão em inglês, não seria o melhor. A uniformidade nesse caso é a saída. E a proposito, não vi nenhum fã xiita reclamar ainda, mas a adaptação da música e as rimas ficaram bacanas. No mais é isso, são probleminhas técnicos que dependendo de você, pode realmente ser um PROBLEMA, ou simplesmente, nada demais. Porém, minha posição é essa: NÃO INVENTE PANINI! Se acontecer nas outras edições, confesso que será broxante, apesar de não ser motivo suficiente para me fazer desistir de colecionar. A capa, a Panini resolveu seguir o original e ficou simplesmente linda, a da TokyoPop é bem feinha, convenhamos. Atrás, há um resuminho, com a imagem de corpo inteiro de Ganta e Shiro.

Conclusão

Em todo caso, Deadman Wonderland é um mangá que recomendo para o publico do blog e demais pessoas que procurem por um shounen que não seja aquele padrão, de porradarias e mimimis. Não há grande profundidade no roteiro, mas caso leia despretensiosamente, você irá se surpreender ou até mesmo quem sabe se emocionar com alguns personagens. A arte é excelente e impactante, tanto nos quadros individuais quanto na composição de planos e sequências. A arte casa perfeitamente com a fluidez da leitura, o que faz com que quem estiver lendo, passe por cada ilustração de forma bem dinâmica e quando você assusta: “Óh, já estou no final”. O mangá cresce em história e narrativa surpreendentemente a partir do volume 05, ganhando contornos mais densos e os personagens acabam sendo explorado de forma mais contundente pelo lado psicológico. Consequentemente, com a crescente pressão partindo do volume 06, acho que não é exagero dizer que ao chegar aos atuais capítulos do volume 11, você estará sem folego. Oh, my.... EU. VEJO. O FIM. CHEGANDO.



Veja bem, eu tinha muito mais a dizer, mas chega não é mesmo. Se veio a conhecer o mangá, através do anime, te recomendo bastante que aproveite para compra-lo, apesar de até o volume 5, o anime ter seguido a história de perto, há vários detalhezinhos e outras coisinhas que não foram retratados ou que por algum motivo, foram alteradas, mas que dá um charme todo especial pra história. Sem falar na dinâmica, que foi principal ponto de negação do anime, que ao contrário do que alguns xiitas dizem os problemas do anime está longe de ser os cortes ou somente adaptação, que até certo ponto é fiel. A diferença é que Jinsei Kataoka e Kazuma Kondou são muito mais competentes que o diretor da versão animada. Bye bye. 


Periodicidade: Bimestral
Autores: Jinsei Kataoka e Kazuma Kondou
Volumes: 11 (em andamento)
Formato: 13 x 18 cm
Papel Pisa Brite
Páginas: 224
Preço: R$ 10,90
Distribuição: Setorizada

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  1. Deadman Wonderland vol. 1, o último lançamento da Panini
  2. (Vídeo Quest
  3. DEADMAN WONDERLAND Vol. 1 – Sangue E Circo Para O Povo (Aninkenkai)
  4. O circo dos horrores de Deadman Wonderland! (ChuNan)
  5. Deadman Wonderland – Editora Panini (Gyabbo!)