Mimi no Kaidan não é a melhor obra do mestre Junji Ito, mas
é um excelente cartão de visitas para aqueles que nunca leram nada do autor ou
para aqueles que preferem um horror mais leve e sem muita pressão. Apesar de
ser considerado um mangá fraco para os padrões Junji Ito, as histórias são bem
gostosas e não por acaso, ao ler cada conto você tem a sensação de estar
ouvindo uma daquelas histórias assombrosas, numa roda de amigos. Não por acaso,
porque Mimi no Kaidan é mais uma compilação de vários contos e dessa vez, a
história nasceu entre uma colaboração entre Junji Ito e o pesquisador de
ocultismo Ichiro Nakayama e Hirokatsu Kihara, adaptando algumas histórias do
livro deles, Shin Mimibukuro, uma coletânea de histórias fantasmagóricas que
ganhou adaptação até para o cinema – e o fato de ser considerado abaixo da
média, vem do fato de não ser uma obra original de Ito.
Se você der uma olhada aqui, neste link, e se for parecido
comigo, vai sentir uma vontade absurda de querer assistir esses contos. Mas
falando exclusivamente da versão mangá, no final do último capitulo de Mimi no
Kaidan tem um extra bem legal, com Junji Ito em versão mangá, explicando como
foi o processo de criação, as liberdades que ele fez questão de ter na hora de
adaptar as histórias: “(...) assim várias
liberdades foram tomadas em relação a obra original.” – e ele dialoga com a personagem Mimi, ainda na banda
desenhada e é interessante ver o próprio Junji Ito falando sobre o seu excesso
de zelo e a forma como ele se deixou levar pelas histórias. Fora alguns
comentários sobre um conto ou outro inserido no mangá e os mistérios “não
resolvidos”.
Aliás, para quem lê Junji Ito a mais tempo ou teve a
oportunidade de ler ao menos duas histórias dele, percebe facilmente em como ele deixa propositalmente muitas em aberto – o que é algo bem caraterístico até
mesmo no gênero do terror e os contos fantasmagóricos, que são a fonte onde
Junji Ito mais bebe. Particularmente acho que faz parte do “manter o encanto”,
pois é o desconhecido que assombra mais, de não sabermos com o que estamos
lidando. Fora que se você “viaja” um pouco mais é exatamente assim que acontece
na vida real. Eu mesma tenho conto curioso pra contar, ele tem inicio, mas não
tem fim e aconteceu comigo e alguns amigos em uma noite de lua cheia.
Estávamos todos no
parque, na parte onde fica localizada as quadras esportivas e era perto de meia
noite, lua cheia e vimos um casal de velhinhos que apareceram do nada,
atravessando em meio a quadra de futebol/basquete. Saímos apavorados, largando
tudo pra trás por puro ímpeto. Depois de certa distância, recobramos a
racionalidade e voltamos pra lá, afinal, estávamos distraídos conversando e
talvez nem tínhamos visto os velhinhos se aproximando lentamente. Mas o fato é
que quando chegamos lá, estava tudo vazio e deserto. Detalhe: é um campo de
recreação enorme, levam-se no mínimo, dez minutos pra atravessar todas as
quadras – logicamente eu não levo isso a sério, mas na época foi fascinante e
ficamos com aquilo na mente por um bom tempo.
Voltando a Mimi no Kaidan, outro detalhe que chama a
atenção é a protagonista Mimi, que é exatamente igual a varias outras heroínas
de Junji Ito, em character designer e personalidade. E isso é bem
caraterístico, as modelos de Junji Ito são basicamente o perfil de personagens
como a Tomie (da série Tomie) e
Kaori (do apocalíptico Bio-Horror Gyo!).
Mas ao ler Mimi no Kaidan eu me lembrei mesmo foi de Uzumaki, celebre mangá de Junji Ito, tido para muitos como a sua
obra prima. Impossível não olhar para os personagens deste mangá e não nos lembrarmos
dos de Uzumaki, isso se você tiver lido. E a Mimi é tão simpática e carismática
quanto a protagonista Kirie Goshima.
Mas bem, aqui a arte está bem mais limpa do que em Uzumaki, fora que é bem
menos sombria e “assustadora”. Pediram ao Junji Ito que para essa série,
fizesse uma protagonista feminina e assim nasceu a Mimi. O character designer dela
está magnifico, não só dela como de todos os personagens e a ambientação.
Mimi no Kaidan contém uma série de contos, com a Mimi
protagonizando todos. A primeira história, “A mulher da porta ao lado” (The Woman Next Door), baseado no conto “Quartos do segundo andar”, ao qual ele
parece ter gostado bastante. É uma das mais intrigantes e traz Mimi às voltas
com uma estranha e misteriosa vizinha. O desfecho é surreal. Mas as que eu mais
curti foram: “O Litoral” (The Seashore),
uma história que novamente meche com o desconhecido e por isso me fascinou
tanto, com um desfecho bem curioso. “Sozinha com você” (Just the Two of Us) é sem dúvidas a mais assustadora, por lidar
com... não vou falar pra você não perder o fator surpresa, já que a história
trabalha muito em cima do mistério. E você que se considera fraco pra histórias
do gênero, Mimi no Kaidan é a melhor pedida. São apenas seis capítulos e não te
fará perder o sono.
Lançamento: 2002
Status: Completo
Volumes: 01
Autor: Itou Junji
Gênero: Drama, Horror, Sobrenatural
Demografia: Seinen
Revista: Comic Flapper (editora Media Factory)
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