Um conto de ficção-cientifica sobre um cão numa cidade distopica.
Je t'aime (Te Amo, em francês), que fez sua estreia no 34º Annecy Animation Film
Festival da França, em 2010, é um curta-metragem que nasceu da colaboração
entre Mamoru Oshii (filmes da série Ghost in the Shell) e a banda de rock japonesa Gray. O curta é um vídeo
promocional para o décimo primeiro álbum do Gray, também lançado em 2010, com a
música ‘Satellite of Love’ se tornando a canção tema do projeto – devo dizer
que foi uma escolha bem apropriada, tendo melodia e letra em um timing envolvente
com a animação. Je t'aime passou a ser vendido juntamente com a edição limitada
do álbum, que também contava com um DVD de performances ao vivo da banda.
Os membros da banda se dizem fãs ardorosos de Mamoru Oshii, provável
motivo da liberdade criativa que com que ele conduz o curta e consequentemente
motivo pelo qual aceitou o projeto. Com direção e roteiro de Oshii, Je t'aime
se sustenta por si próprio, como um filme curto. Apesar da simplicidade
conceitual, encanta pela delicadeza de sua composição, trazendo a tona
sentimentos que são universais. Exatamente por isso, não há nenhum diálogo e as
únicas legendas que aparecem são as da música tema que embalam o curta. Tudo é
expressão através de ações e reações.
A história traz elementos típicos da do universo ficcional
de Oshii, se passando em um futuro próximo, quando toda a humanidade aparentemente
foi exterminada, sobrando apenas um cachorro basset, tão abandonado e solitário
quanto aquela cidade. Seu desejo é poder sentir mais uma vez o calor humano,
mas não importa o quanto ele ande, não há ninguém. Um velho tanque de guerra em
meio a rua deserta, que agora serve de acento para pássaros, estátuas e
manequins imóveis, faróis piscando, lojas, edifícios e templos vazios,
mangueiras abertas – se trata de um cenário distópico onde parece que as
pessoas foram abduzidas em meio às suas atividades. E por mais que o pequeno
basset olhe essas estruturas, fareje e se enrosque em manequins, eles não têm
calor humano, são apenas resquícios de uma civilização que desaparecera. Num determinado
dia ele se encontra com um robô de aparência feminina, e desde então, ele vai
ao encontro dela todos os dias, na tentativa de estabelecer contato, mas é ignorado,
até que seu objeto de afeição se volta contra ele.
Fissurado por paisagens urbanas decadentes e abandonadas, alusão
a elementos religiosos, confusão entre subjetividade onírica e realidade – e claro, cachorros, Je t'aime introduz todos
estes elementos característicos em suas obras, em um tema que pode ser definido
como a dificuldade de se lidar com a solidão e a perda da humanidade nos
homens, que têm se tornado cada vez mais indiferentes ao seu meio, imersos na
artificialidade de seus simulacros. Logo, mesmo num ambiente de alta densidade
populacional, com pessoas se espremendo em locais diminutos ou lado a lado na
espera de sua condução, estão todos com as cabeças baixas e voltados para si
mesmos que no fim das contas é como se fosse uma cidade fantasma, não havendo
diferença real entre estar em meio a multidão ou sozinho num quarto. O
sentimento de abandono e solidão é mesmo. Curiosamente, Oshii tem aversão à alta
exposição e como artista, é visto como uma figura quase que isolada. Prefere
projetos independentes à blockbusters e se diz desinteressado nas produções
comerciais. Inclusive, já chegou a se referir como um “cachorro de rua”.
Mesmo com valores de produção mais enxutos, Oshii mantém seu
habitual padrão de qualidade quanto à animação. A sequência de ação ao final do
curta é o ponto alto, com ótimo storyboard de Tetsuya Nishio e direção de Oshii, que tem uma excelente mão para extrair um cenário de ação
física de impacto, com bons ângulos e perspectivas do storyboard. O design da garota robô é
belíssimo, com um desenho conceitual que emula divindade, as suas asas que são
em forma de trombone (é trombone, não
é?) em referência à musicalidade presente no curta, e suas articulações mecânicas.
'Je t'aime, assim como boa parte das produções de Oshii, promove o encontro do universo
metafísico com o mundano, onde sonhos e realidade se encontram e se confundem.
Para ele, não é necessário diferenciar o sonho da realidade, uma vez que ambos
são empregados para projetar o que há em sua imaginação. Cães não se importam
com tais definições, indiferentes a forma, só interessam se podem contar com
aquilo para sobreviverem e terem companhia. Como o basset do filme, que não se
assusta ou se indaga acerca da natureza estranha da garota robô. Uma máquina,
um anjo, demônio, alucinação? Para o pequeno cão não há tais questionamentos. E
assim, Oshii entrega sua historia de múltiplas camadas interpretativas.
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ★
Diretor: Mamoru Oshii
Character design, storyboard e diretor de animação: Tetsuya Nishio
Estúdio: Production I.G.
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Banda Glay com Oshii [mais imagens do encontro no Comic Natalie]
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ★
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