domingo, 24 de novembro de 2013

Entrevista Com Executivo do Ghibli sobre The Wind Rises

Hayao Miyzaki pode ter anunciado aposentadoria mas continua com a bola toda.
E seu aparente canto dos cisnes, The Wind Rises, vêm fazendo um baita sucesso dentro e fora do Japão (incluso as polêmicas que o titulo agregou por ousar colocar o dedo na ferida de um passado nipônico nada bem quisto pelo mestre); forte candidato ao Óscar em um ano fraco para animações, também estará aportando aqui no Brasil em Fevereiro de 2014 com o título O Vento Está Soprando, segundo o Jovem Nerd.

O filme conta a história de Jiro Horikoshi (Hideaki Anno), um homem que projetou caças japoneses durante a Segundo Guerra Mundial, mas antes disso, seu grande sonho é construir uma máquina capaz de voar e em meio a esta incessante busca por seu objetivo, ele conhece a graciosa Naoko (Miori Takimoto).
Essa é uma entrevista do site Thompson on Hollywood com um executivo do estúdio Ghibli Geoffrey Wexler, que é o responsável pela transação dos títulos do estúdio para os EUA. Achei pertinente as perguntas e respostas e resolvi translatar (!), menos a introdução e as primeiras duas perguntas que não têm muito haver nem com o filme The Wind Rises nem o Ghibli em si, mas você sempre por ir lá na fonte praconferir tudo completinho.

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Este é mais um filme para adultos. Isto parece incomum mesmo para você.

Wexler: Eu tendo a pensar nisso como um cardápio familiar. Este filme definitivamente não é destinado a crianças. Miyazaki quis fazer o filme que ele tanto queria fazer.  É uma despedida de verdade para ele. Uma das coisas que é interessante sobre esse filme é que há um herói masculino, em vez de uma menina de 7 aos 14 ou 15. A maioria dos filmes de Miyazaki acontece em um período muito curto de tempo. Poderia ser um dia, poderia ser vários dias. Nosso produtor fundador, Toshio Suzuki, desafiou Miyazaki a fazer um filme que tem lugar durante um período muito mais longo de tempo. Da segunda a última cena do filme é de 1935, e a última cena é de 1945, e não há nada mostrado neste meio [tempo]. Miyazaki não estava lá para mostrar a guerra. Nós temos outro filme que sai no próximo mês pelo mentor de Miyazaki, pode-se dizer rival em alguns aspectos, o Sr. [Isao] Takahata. Ele tem filmes com mais de um ponto de vista do mundo real, com um pouco de fantasia presente.

Quanto tempo tem que Miyazaki queria filmar esta história?

Wexler: Havia diversos tópicos em sua cabeça por um longo tempo. Seu pai fez parte da indústria aeronáutica, ele amou aviões e máquinas de todos os tipos por um tempo muito longo. Mas cerca de cinco anos atrás, ele escreveu um mangá serializado que apareceu em uma revista para fabricantes de aeromodelos. Eu não sei quantos episódios eram, cerca de 8 ou 9 edições, e são várias páginas de uma história em quadrinhos que conta essencialmente a história de Jiro Horikoshi.

Isto é ficção até certo ponto, mas até onde é verdade?

Wexler: Ele escreveu e, em seguida, começou a trabalhar nele. Nós temos o que é chamado de uma proposta de projeto ou plano, várias páginas de como deve ser a visão do diretor sobre o filme. Então eles escrevem um conte (Nota da tradutora: essencialmente falando, um ‘conte’ são páginas com sequências de storyboard de uma obra com marcações do diretor que serve como guia para os animadores se guiarem previamente. Muitas vezes em obras de grande sucesso contes são agrupados sequencialmente e transformados em livros e posteriormente colocados á venda. Quer exemplos? Aqui e aqui e aqui), que é a nossa versão de storyboards, e eles escrevem desde o início, parte A até o fim, parte D, e, em seguida, fazem o filme apenas com isso. É muito diferente do que um monte de estúdios que estão constantemente revisando e criando storyboards. E então começamos no início de 2010 e a produção começou, a sério, em meados de 2011 na época de “Poppy Hill”. Estamos focados principalmente no personagem principal, Horikoshi Jiro, que é baseado em duas pessoas. Ele é um amálgama de um homem chamado Jiro Horikoshi, um engenheiro aeronáutico considerado um dos melhores de todos os tempos, e um homem chamado Tatsuo Hori, um romancista e ele escreveu um livro chamado "Kaze Tachinu", "The Wind is Rising, uma linha de um poema francês que está contido no início do filme. Nós o ajustamos um pouco para que fosse nosso título. O personagem é uma combinação da história de Tatsuo Hori com Jiro Horikoshi, ele foi uma pessoa com tuberculose, subiu nas montanhas para estar bem. Tuberculose fazia grande parte de nossas vidas naquela época, no Japão, e a única coisa sobre isso, então era que, se você adquiriu você morreu. A ideia de que você poderia se recuperar era algo muito raro, poucos conseguiam, e isto que instrui muito do que você vê na tela. Miyazaki quis fazer algo bonito, por isso é uma mistura dessas coisas, e é realmente sobre viver a sua vida o melhor que pode naquele momento.

Ele também está pintando um retrato do Japão pré-moderno.

Wexler: É a restauração pós-Meiji e o país está correndo para recuperar o atraso, como Aquiles tentando alcançar a tartaruga. Será que algum dia vamos recuperar o atraso? Mesmo se chegarmos perto de onde estavam eles já terão avançado para frente. E o Japão não era um país rico, há discussões sobre como quão pobre todo mundo é, o quanto eles estão gastando em aviões. É muito mais que era de 1900 até 1935.

E esta história é bem conhecida no Japão?

Wexler: Esta história não é. Miyazaki quis apresentar uma história deste gênio engenhoso, e um engenheiro, e do que estava acontecendo no Japão naquele momento. É fácil dizer o que o Japão não foi, mas a muito do que era o Japão, e havia muita coisa acontecendo no Japão na época.

Como você caracterizaria as inovações na animação?

Wexler: Como alguém que passou muito tempo com esses filmes e ouviindo alguns dos problemas que passaram, eu posso falar sobre duas coisas: uma é o incrível nível de detalhe. Hoje eu estava percebendo coisas que eu não havia notado antes, realmente maravilhosos pequenos detalhes. Em segundo lugar, o som. Os aviões, trens, todos os carros, os terremotos foram manifestados por um ser humano, um cara, nosso técnico de som principal e coordenador de som. Miyazaki quis fazê-lo sozinho, mas sua equipe disse que não. Mais de metade dos efeitos sonoros são sons vocalizados. O som é mono, um alto-falante, um canal. Miyazaki queria um som mais limpo, mais simples.

Qual é o equilíbrio entre filmes do Miyazaki e filmes de outros diretores? Quantos anos o Studio Ghibli leva para produzir. 

Wexler: Costumamos fazer um filme a cada ano por 2 ou 3 anos e depois ficamos livres por um ano. Mas tem sido quase todos os anos. Não tem havido uma película de Miyazaki a cada ano. Ele não está supervisionando todos os nossos filmes. A maioria, mas não todos. Temos vários diretores que chegaram a escrever parte da história, mas não foi dirigido por ele. O seu filho dirigiu "Up On Poppy Hill", temos os filmes do Takahata e outros filmes de outros diretores. Metade do nosso portfólio são filmes do Miyazaki.

Miyazaki gosta de voltar no tempo para retratar outros períodos no Japão, e ele gosta de se concentrar na beleza do Japão rural antes da industrialização.

Wexler: Muitos de seus filmes têm lugar numa Europa fantasiosa. Pense em " Howl's Moving Castle". Realmente não parece ser a China. Ele tem uma visão de como as coisas são, ou foram, ou deveria ter sido, ou poderia ter sido. Muitos dos comportamentos dos personagens são como ele pensa de como as pessoas devem ser. Muitos personagens não falam na gíria, você não tem um monte de “heys” e “ums” e “ahs”. Este é um grande desafio na dublagem, porque é muito fácil de colocar um "então" ou "um" ou "ah" para corresponder o que está sendo dito, e um dos meus trabalhos é dizer não. Por exemplo, em “My Neighbor Totoro”, a roupa das crianças é dobrada ao lado de sua cama para a manhã seguinte, porque é isso que as crianças devem fazer antes de ir para a cama. Em "Poppy Hill," tivemos colegiais, sem gírias, nem um pouco de gírias, falavam corretamente. É difícil expressar em Inglês, mas existem muitos níveis de formalidade e informalidade em japonês e os personagens tendem a falar como as pessoas deveriam conversar.

Dê-nos um senso dos maiores sucessos de Studio Ghibli no Japão e fora do Japão.

Wexler: Se eu pensar neles pelos números nas bilheterias, não vão coincidir com o que você pensa sobre os nossos sucessos. "Totoro" foi um grande sucesso, que evoluiu ao longo do tempo. “Spirited Away” é, de longe, nosso maior sucesso. Eu odiaria fazer qualquer injustiça a estes filmes - há apenas 20 anos, então eles são todos grandes sucessos - mas eu diria que são os filmes de Miyazaki “Spirited Away” e “Howl's Moving Castle”. Se eu encontrar com homens, talvez de 40 ou mais velhos, que pensam que animação não foram feitas para eles, eu os encorajo a assistir “Porco Rosso”. As pessoas imaginaram que este filme seria um “Porco Rosso 2”, o que não é. Mas há muitos aviões. “Kiki's Delivery Service” é um prazer absoluto, “Castle in the Sky”. Eu sou um grande fã de "My Neighbor the Yamadas", que usa um novo estilo de animação. É incrivelmente inteligente e espirituoso, e mais distinto.

Será que este vai ser realmente o último filme de Miyazaki?

Wexler: De tudo que eu ouvi, esta será sua última animação de longa duração. Têm sido um enorme sucesso no Japão. Temos ainda uma longa temporada teatral antes de irmos para o home vídeo. Estamos preparando uma premiação que acontecerá em novembro, em Nova York e Los Angeles, que serão legendadas, e em fevereiro teremos nossa versão dublada.

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