Antes de tudo, esse não é basicamente um post autobiográfico,
mas certamente irei comentar o que há de melhor na carreira de um dos mangakas
mais influentes do Japão. Ele é excêntrico, e apesar de ser mundialmente
conhecido pela interwebs como o pai e o maior nome dos mangás de horror no
Japão, ele também criou o que conhecemos hoje por “comedia romântica” de séries
shounens (Toradora, Love Hina, servem
como exemplo), se aventurou pelo shoujo e também criou obras dentro do gênero
de ficção cientifica, recebendo diversos elogios da crítica. Falo de Kazuo
Umezu, que além de ser um brilhante mangaká, ainda tem três bandas (!), é compositor e ainda atua como ator
– ele é uma dessas figurinhas multimídia e se tornou um importante ícone da
cultura pop japonesa, se transformando em um personagem do mundo real, usando
sempre roupas com listras horizontais brancas e vermelhas, o que sem dúvidas se
tornou sua marca registrada. Esse é Kazuo Umezu e seu divertido modo de viver a
vida.
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Romansu no Kusuri |
Kazuo Umezu, ou como ele gosta que o nome dele seja escrito;
"Kazuo Umezz" – foi mais um do enorme filão de artistas que foram influenciados
por Ozamu Tezuka. Ele viu se
interesse por mangás despertado quando leu aquele que foi o responsável por
revelar todo o talento de Ozamu Tezuka,
seu primeiro mangá, “Shin Takarajima”
(Nova Ilha do Tesouro), uma adaptação
do livro original escrito por Sakai
Shichima. Em 1955 ele faz sua estreia no mercado de mangás para locação dos
anos cinquenta – “Kashi-hon”, palavra exclusivamente japonesa, introduzida no período
Edo do Japão e refere-se a livros e mangás que eram alugados pelo fato que na
época eram muito caros para que pessoas mais simples pudessem compra-los e que
entrou em declínio a partir dos anos 60. Ele começou escrevendo pequenas histórias
de mangá shoujo, tendo como seu primeiro trabalho o mangá “Mori no kyodai”,
isso aos 19 anos de idade. Em 1962, ele cria a série shoujo, “Romansu no Kusuri”, uma comédia romântica
que faria com que ele fosse o propulsor do gênero "Rabu-kome" (comédia/romance) e principal responsável
pela existência dos shounens românticos atualmente.
"Eu não acredito em fantasmas, por assim dizer, mas acho o
conceito interessante. Essencialmente fantasmas são pessoas que vieram de volta
dos mortos. Descasque os elementos sobrenaturais e o que resta? Pessoas! Isso
afirma o que eu sempre acreditei. Que nada
é mais assustador do que pessoas.
Isto não me impede de estar assustado! Voltando no escuro
pra minha casa tarde da noite, me sinto como se um fantasma estivesse prestes a
saltar para cima de mim. A sensação de que poderia ser – não que fosse – é mais
aterrorizante."
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Kami no Hidarite Akuma no Migite (Left Hand of God, Right Hand) - Simplesmente sensacional |
Algo bem interessante, aliás, é o fato de que uma importante
fatia do publico consumidor de quadrinhos de horror no Japão ser formada por
mulheres e consequentemente, muita das mais importantes obras desse gênero
serem do demográfico shoujo. Ainda na década de 60, Umezu começou seus passos
como o principal nome do horror japonês com series como “Hebi Shoujo” – que conta a história de uma pequena aldeia que é
assombrada pela lenda de uma mulher serpente, que está determinada a se vingar
dos aldeões. Este mangá é sequela de “Mama
ga kowai”, e infelizmente como uma boa parte dos mangás de Umezu, você não
encontra disponível na internet pra conferir (e talvez, esse fato seja um dos grandes culpados por ele não ser tão
conhecido aqui, como por exemplo, Junji Ito).
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Cat Eyed Boy |
Já no final dos anos 60, veio “Cat Eyed Boy” com a história de 2 volumes, sobre um menino meio-humano, meio-monstro, mas que por sua aparência humana, não poderia viver no mundo dos demônios. Então, ele passa a viver nas sombras do mundo humano, sendo assim odiado tanto por demônios, quanto pelos seres humanos – são 11 contos bem interessantes, envolvendo o mesmo personagem em histórias de vingança e retaliação (leitura altamente recomendada, inclusive – Mas desde que você não tenha medo do material que irá encontrar XD). Esse foi sem dúvidas, o primeiro grande mangá do gênero de horror que Umezu veio a produzir e que está entre suas principais séries, tendo inclusive sendo lançado nos EUA pela VIZ MEDIA.
- Umezu Kazuo no Noroi (The Curse of Kazuo Umezu)
Em 69, já com um pé nos anos 70 e depois de ter experimentado escrever para uma revista seinen (o seu trabalho anterior, Cat Eyed Boy), Umezu vai para as páginas da Shonen Sunday (revista shounen da editora Shogakukan) com “Orochi”, série de 4 volumes sobre a menina que leva o mesmo nome da história, que depois de se envolver em uma acidente e cair no sono, dormindo por várias décadas, acorda e descobre estar vivendo em uma estranha mansão, com duas mulheres. História de horror e suspense sobrenatural, com cada volume sendo um conto diferente (também licenciado pela editora americana, VIZ MEDIA, como Orochi: Blood). Eu ainda não cheguei a ler este mangá, mas sua adaptação para live action é bem interessante e por este, acredita que possa ter sido uma inspiração para Umineko No Naku Koro ni – há vários elementos ali que claramente, serviram de inspiração para Ryuukishi07.
"The Drifting Classroom começou com a ideia de que no futuro,
o mundo seria coberto pelo deserto. Esse provou ser um cenário extremamente
viável. Depois de ter uma base sólida para uma história, os detalhes começam a
cair no lugar.
Os seres humanos são responsáveis por tudo em nosso mundo.
Olhe ao seu redor. As roupas que você está vestindo, o prédio em que vive, as
palavras que você está lendo. Eles são todos feitos por mãos humanas! Portanto,
se você entender o que os humanos querem, você pode deduzir onde estamos indo.
Quer saber o que o futuro nos reserva? Siga desejo humano!"
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The Drifting Classroom |
Depois de publicar o mangá “IARA”, desconhecido por nós do
ocidente, veio aquela que todos concordam em unanimidade (eu não posso falar nada, já que não cheguei a ler) ser sua obra
prima, “Hyouryuu Kyoushitsu” – ou simplesmente;
“The Drifting Classroom”, que foi
resenhado pelo descaradamente fanboy de Umezu, Nintakun do blog Mangas Cult. Não precisa nem dizer que já está licenciado há
tempos nos EUA, né? Mas enquanto isso no Brasil.... Em 1990, veio o bio-horror “FOURTEEN” (14-Sai), algo nos mesmos moldes de Gyo, de autoria de Junji Ito e que inclusive também foi comentado no Mangas Cult. O mangá é
um épico do gênero, competindo pau a pau com o “Tomie” (de Junji Ito), com seus 20 volumes encadernados pela editora Shokagukan.
"Se cuidar da sua saúde estava fora de questão, como você
manteve a qualidade do seu trabalho?"
É uma boa pergunta! Você sabe todos os passeios que eu fiz
durante minhas noites sem dormir? Foi onde eu fiz o meu planejamento. Histórias
e diálogo veio a mim de forma natural. Então, quando eu fiz o meu máximo, tudo
já estava em meus cadernos à espera de ser usado.
Eu fiz disso uma regra para manter cinco histórias na mão. A
primeira coisa que eu faria quando uma oferta viesse a mim seria usar o que
estava no estoque. Os prazos estavam apertados, mas este método fez com que eu
nunca perdesse o ritmo.
Em Baptism, a protagonista Sakura é torturada pela rival no amor, que a obriga a comer uma sopa de baratas. Nojinho.
Mas desde então, Umezu se tornou uma figura publica e o seu
nome amplamente divulgado, fazendo diversas aparições na tv e na mídia em
geral. Apesar do reconhecimento enorme que ele possui no Japão, nem todos
conhecem essa faceta de Umezu e fica algo como o que acontece com Ozamu Tezuka, onde todo mundo já ouviu
falar, mas poucos realmente conhecem suas obras – principalmente aqui, do outro
lado do globo.
O caso é tão louco, que há relatos de que durante a construção,
Umezu chegou a ser levado na justiça pelos vizinhos incomodados. Agora eu fico
imaginando como é para um japonês tradicional, que vive em um local residencial,
com um edifício como aquele, com cores berrantes e designer inovador (?). Além de apresentar programas de tv,
fazer aparições e ser periodicamente destaque naquela mídia local, Umezu está
sempre se expondo, seja do modo que for. Recentemente, ele abriu a porta de sua
residência para um documentário e se deixando entrevistar por fãs de varias
partes do mundo – então eu digo, não é atoa que Umezu é uma figura tão querida
e respeitada por todos. Talvez não seja exagerado afirmar que, ele represente
para os japoneses, o que a figura publica de Mauricio de Souza representa para
os brasileiros (vamos deixar de lado
aqui, as polêmicas que envolvem as decisões de cunho pessoal dele).
O que acaba não sendo surpresa alguma ver tamanho espetáculo
no mês das “guloseimas e gostosuras”,
já que o “Dia das Bruxas” no Japão é comemorado como se fosse realmente um
carnaval, com todos se divertindo juntos e com fantasias que, não necessariamente
precisam ser assustadoras, muito pelo contrário. Tristeza mesmo é ficar de fora
de toda essa diversão. Aliás, o Umezu tem um fã-clube nos EUA, que é
simplesmente sensacional e que sempre faz a cobertura do Umezu Carnival, o blogTokyo Scum.
"Suas histórias são infames e suas imagens violentas."
"O medo é criado quando certas condições são cumpridas. Um
deles envolve a aparência. Quanto mais bizarra e feia a imagem, maior o medo. É
simples de fazer um retrato assustador, mas para fazer uma ação assustadora, é
uma questão bem diferente. É aí que vem toda brutalidade.
Quando eu fiz Nekomen em 1963, fiz a escolha deliberada de
ir até meus limites. Eu nunca olhei para trás!"
Bom, sempre há o que falar sobre Umezu, mas vamos ficando
por aqui. Mas não custa nada lembrar o fato dele ser um dos primeiros artistas
a se aprofundar no gênero de horror e influenciar vários autores e artistas ao
longo dos anos. E mesmo que sua relevância não se resuma a um gênero apenas,
seu pioneirismo lhe deu o status de o
grande mestre dos quadrinhos de horror, que é ressaltado com o fato da
premiação mais importante deste gênero, levar o seu nome: Prêmio Umezu. Depois de vários países que tiveram o privilegio de
ter seus mangás publicados, ficamos na espera aqui no Brasil, que algum dia
algo dele possa vir pra cá. Gwashi!
Fontes: http://mastersofmanga.com,
"Como foi recebido pelo público em geral?"
"Oh, você sabe, eu recebi cartas de pais reclamando que, Você não pode mostrar este tipo de brutalidade para as crianças!"
Eu lembro que havia uma velha que trabalhava em uma loja Kashihon.
Toda vez que eu ia lá ela me palestrava, "Eu nunca, jamais deixarei as
crianças lerem esta porcaria!" Então, três anos mais tarde, com o sucesso
e expansão do horror, lojas como a dela são inundadas com as crianças olhando
para os meus mangás. Os proprietários de lojas precisam acompanhar a
modernidade! (Risos)
Ela estava sempre protestando, mas nunca boicotou. Eu
considerei essas críticas como uma forma de consagração."
"Isso mostra que seu trabalho teve um impacto nas pessoas."
"É claro que eu fui
parado em algumas áreas. Por exemplo, em Hangyo-Jin, há uma parte onde um personagem
tem sua boca aberta com uma faca, deixando uma fenda enorme. O editor disse-me
para fazer a ferida menor, mas ai teria matado a cena! Então fiz o que ele
disse e usei truques de perspectiva de fazer a ferida parecer enorme."
"Qual dos seus trabalhos que você recomendaria para pessoas
como nós na casa dos 20 anos?"
The Drifting Classroom! Eu considero meu melhor trabalho. A
mensagem é clara e o drama é de altíssima qualidade.
***
"Aprendi muitas coisas do Tezuka quando era criança, mas este
foi o mais importante: Ele não fez rodeios ou empobreceu suas obras por causa
das crianças. Ele lidou com temas complicados e deixou os leitores resolverem
isso por conta própria."
- Kazuo Umezu