domingo, 16 de outubro de 2011

Conhecendo o Mestre do Terror: Kazuo Umezu



Antes de tudo, esse não é basicamente um post autobiográfico, mas certamente irei comentar o que há de melhor na carreira de um dos mangakas mais influentes do Japão. Ele é excêntrico, e apesar de ser mundialmente conhecido pela interwebs como o pai e o maior nome dos mangás de horror no Japão, ele também criou o que conhecemos hoje por “comedia romântica” de séries shounens (Toradora, Love Hina, servem como exemplo), se aventurou pelo shoujo e também criou obras dentro do gênero de ficção cientifica, recebendo diversos elogios da crítica. Falo de Kazuo Umezu, que além de ser um brilhante mangaká, ainda tem três bandas (!), é compositor e ainda atua como ator – ele é uma dessas figurinhas multimídia e se tornou um importante ícone da cultura pop japonesa, se transformando em um personagem do mundo real, usando sempre roupas com listras horizontais brancas e vermelhas, o que sem dúvidas se tornou sua marca registrada. Esse é Kazuo Umezu e seu divertido modo de viver a vida.

Romansu no Kusuri

Kazuo Umezu, ou como ele gosta que o nome dele seja escrito; "Kazuo Umezz" – foi mais um do enorme filão de artistas que foram influenciados por Ozamu Tezuka. Ele viu se interesse por mangás despertado quando leu aquele que foi o responsável por revelar todo o talento de Ozamu Tezuka, seu primeiro mangá, “Shin Takarajima” (Nova Ilha do Tesouro), uma adaptação do livro original escrito por Sakai Shichima. Em 1955 ele faz sua estreia no mercado de mangás para locação dos anos cinquenta – “Kashi-hon”, palavra exclusivamente japonesa, introduzida no período Edo do Japão e refere-se a livros e mangás que eram alugados pelo fato que na época eram muito caros para que pessoas mais simples pudessem compra-los e que entrou em declínio a partir dos anos 60. Ele começou escrevendo pequenas histórias de mangá shoujo, tendo como seu primeiro trabalho o mangá “Mori no kyodai”, isso aos 19 anos de idade. Em 1962, ele cria a série shoujo, “Romansu no Kusuri”, uma comédia romântica que faria com que ele fosse o propulsor do gênero "Rabu-kome" (comédia/romance) e principal responsável pela existência dos shounens românticos atualmente. 

"Eu não acredito em fantasmas, por assim dizer, mas acho o conceito interessante. Essencialmente fantasmas são pessoas que vieram de volta dos mortos. Descasque os elementos sobrenaturais e o que resta? Pessoas! Isso afirma o que eu sempre acreditei.  Que nada é mais assustador do que pessoas.
Isto não me impede de estar assustado! Voltando no escuro pra minha casa tarde da noite, me sinto como se um fantasma estivesse prestes a saltar para cima de mim. A sensação de que poderia ser – não que fosse – é mais aterrorizante."

Kami no Hidarite Akuma no Migite (Left Hand of God, Right Hand) - Simplesmente sensacional
Algo bem interessante, aliás, é o fato de que uma importante fatia do publico consumidor de quadrinhos de horror no Japão ser formada por mulheres e consequentemente, muita das mais importantes obras desse gênero serem do demográfico shoujo. Ainda na década de 60, Umezu começou seus passos como o principal nome do horror japonês com series como “Hebi Shoujo” – que conta a história de uma pequena aldeia que é assombrada pela lenda de uma mulher serpente, que está determinada a se vingar dos aldeões. Este mangá é sequela de “Mama ga kowai”, e infelizmente como uma boa parte dos mangás de Umezu, você não encontra disponível na internet pra conferir (e talvez, esse fato seja um dos grandes culpados por ele não ser tão conhecido aqui, como por exemplo, Junji Ito).

Cat Eyed Boy
Já no final dos anos 60, veio “Cat Eyed Boy” com a história de 2 volumes, sobre um menino meio-humano, meio-monstro, mas que por sua aparência humana, não poderia viver no mundo dos demônios. Então, ele passa a viver nas sombras do mundo humano, sendo assim odiado tanto por demônios, quanto pelos seres humanos – são 11 contos bem interessantes, envolvendo o mesmo personagem em histórias de vingança e retaliação (leitura altamente recomendada, inclusive – Mas desde que você não tenha medo do material que irá encontrar XD). Esse foi sem dúvidas, o primeiro grande mangá do gênero de horror que Umezu veio a produzir e que está entre suas principais séries, tendo inclusive sendo lançado nos EUA pela VIZ MEDIA.


  • Umezu Kazuo no Noroi (The Curse of Kazuo Umezu) 
Duas histórias originais criadas pelo mestre do horror, para anime. “Não brinque com o sobrenatural” – duas sequências sobre seres humanos que se aventuram além limites do mundo normal.





















Em 69, já com um pé nos anos 70 e depois de ter experimentado escrever para uma revista seinen (o seu trabalho anterior, Cat Eyed Boy), Umezu vai para as páginas da Shonen Sunday (revista shounen da editora Shogakukan) com “Orochi”, série de 4 volumes sobre a menina que leva o mesmo nome da história, que depois de se envolver em uma acidente e cair no sono, dormindo por várias décadas, acorda e descobre estar vivendo em uma estranha mansão, com duas mulheres. História de horror e suspense sobrenatural, com cada volume sendo um conto diferente (também licenciado pela editora americana, VIZ MEDIA, como Orochi: Blood). Eu ainda não cheguei a ler este mangá, mas sua adaptação para live action é bem interessante e por este, acredita que possa ter sido uma inspiração para Umineko No Naku Koro ni – há vários elementos ali que claramente, serviram de inspiração para Ryuukishi07.



"The Drifting Classroom começou com a ideia de que no futuro, o mundo seria coberto pelo deserto. Esse provou ser um cenário extremamente viável. Depois de ter uma base sólida para uma história, os detalhes começam a cair no lugar.
Os seres humanos são responsáveis ​​por tudo em nosso mundo. Olhe ao seu redor. As roupas que você está vestindo, o prédio em que vive, as palavras que você está lendo. Eles são todos feitos por mãos humanas! Portanto, se você entender o que os humanos querem, você pode deduzir onde estamos indo. Quer saber o que o futuro nos reserva? Siga desejo humano!"

The Drifting Classroom 
Depois de publicar o mangá “IARA”, desconhecido por nós do ocidente, veio aquela que todos concordam em unanimidade (eu não posso falar nada, já que não cheguei a ler) ser sua obra prima, “Hyouryuu Kyoushitsu” – ou simplesmente; “The Drifting Classroom”, que foi resenhado pelo descaradamente fanboy de Umezu, Nintakun do blog Mangas Cult. Não precisa nem dizer que já está licenciado há tempos nos EUA, né? Mas enquanto isso no Brasil.... Em 1990, veio o bio-horror “FOURTEEN” (14-Sai), algo nos mesmos moldes de Gyo, de autoria de Junji Ito e que inclusive também foi comentado no Mangas Cult. O mangá é um épico do gênero, competindo pau a pau com o “Tomie” (de Junji Ito), com seus 20 volumes encadernados pela editora Shokagukan.



 Dando um pulo e indo parar diretamente na década de 80, não poderia deixar de comentar sobre aquele que, talvez não seja sua obra prima, mas que certamente é o mais popular da sua carreira – ao menos no Japão, “Makoto-chan”. Com esse mangá, ele prova que não é apenas o bem sucedido autor de horror, mas também tem talento suficiente pra se aventurar por diversos gêneros, como nesta comedia escatológica, com o tipo de humor recomendado apenas para o publico adulto. Com esse mangá, ele introduziu a frase de efeito "Gwash!" que virou jargão no vocabulário japonês, seguido dos gestos da mão que é fácil de se encontrar em cada canto que se digite “Kazuo Umezu”.

"Se cuidar da sua saúde estava fora de questão, como você manteve a qualidade do seu trabalho?"

É uma boa pergunta! Você sabe todos os passeios que eu fiz durante minhas noites sem dormir? Foi onde eu fiz o meu planejamento. Histórias e diálogo veio a mim de forma natural. Então, quando eu fiz o meu máximo, tudo já estava em meus cadernos à espera de ser usado.

Eu fiz disso uma regra para manter cinco histórias na mão. A primeira coisa que eu faria quando uma oferta viesse a mim seria usar o que estava no estoque. Os prazos estavam apertados, mas este método fez com que eu nunca perdesse o ritmo.


Dando mais um salto enorme no tempo, em 1995 ele se aposenta da carreira de mangaka, por ter desenvolvido tendinite aguda. Ainda assim, em 2006 ele iniciou a série “Kyoufu”, em 2008, “Akanbo Shoujo” e em 2009, “Hebi Obasan” – que com exceção do último citado, acabaram ganhando versão live action nos cinemas japonesas e os mangás originais, se você for muito fã ou entender japonês, pode importar diretamente do Japão.

Em Baptism, a protagonista Sakura é torturada pela rival no amor, que a obriga a comer uma sopa de baratas. Nojinho.


Mas desde então, Umezu se tornou uma figura publica e o seu nome amplamente divulgado, fazendo diversas aparições na tv e na mídia em geral. Apesar do reconhecimento enorme que ele possui no Japão, nem todos conhecem essa faceta de Umezu e fica algo como o que acontece com Ozamu Tezuka, onde todo mundo já ouviu falar, mas poucos realmente conhecem suas obras – principalmente aqui, do outro lado do globo.

 Mas sua excentricidade cumpre bem o papel de torna-lo uma “marca” conhecida não somente entre aqueles que têm o habito de lere mangá ou que se mantém bem informados. Já não fosse ele ter todo um guarda roupa de roupas exóticas, onde predomina o modelo de listras vermelhas e brancas, ele também pintou a casa, as cercas e vários objetos de sua “Makoto-chan House” – sim minha gente, ele é quase um Michael Jackson em seu próprio país das maravilhas e construiu no distrito de Kichijoji, no subúrbio de Tokyo, uma casa temática com as cores vermelho e branco e baseado em sua famosa série, o mangá “Makoto-chan”.


O caso é tão louco, que há relatos de que durante a construção, Umezu chegou a ser levado na justiça pelos vizinhos incomodados. Agora eu fico imaginando como é para um japonês tradicional, que vive em um local residencial, com um edifício como aquele, com cores berrantes e designer inovador (?). Além de apresentar programas de tv, fazer aparições e ser periodicamente destaque naquela mídia local, Umezu está sempre se expondo, seja do modo que for. Recentemente, ele abriu a porta de sua residência para um documentário e se deixando entrevistar por fãs de varias partes do mundo – então eu digo, não é atoa que Umezu é uma figura tão querida e respeitada por todos. Talvez não seja exagerado afirmar que, ele represente para os japoneses, o que a figura publica de Mauricio de Souza representa para os brasileiros (vamos deixar de lado aqui, as polêmicas que envolvem as decisões de cunho pessoal dele).


O que mais falta falar sobre esse mangaka “maluquete”? Ah sim, eu disse lá no inicio que ele também era cantor e compositor, certo? Então, o cara está sempre fazendo apresentações com sua banda, mas todo mês de outubro, o mês do Halloween, ele faz uma apresentação que é digna de ser chamado de circense, tamanho preciosismo perfeição. A apresentação é bem teatral e envolvem todos da plateia, sempre uma vez por ano em um local a ser escolhido, acontece o Umezu Carnival, com o “Kazz” brincando com a banda e seus fãs, apresentando músicas dos seus álbuns de música, além de covers, gracinhas envolvendo a plateia e o momento que em todos de sua banda podem ter seus minutos de fama – a interação é muito bacana e é notável o quanto Umezu se diverte com tudo aquilo e acabam todos juntos&misturados.


O que acaba não sendo surpresa alguma ver tamanho espetáculo no mês das “guloseimas e gostosuras”, já que o “Dia das Bruxas” no Japão é comemorado como se fosse realmente um carnaval, com todos se divertindo juntos e com fantasias que, não necessariamente precisam ser assustadoras, muito pelo contrário. Tristeza mesmo é ficar de fora de toda essa diversão. Aliás, o Umezu tem um fã-clube nos EUA, que é simplesmente sensacional e que sempre faz a cobertura do Umezu Carnival, o blogTokyo Scum

"Suas histórias são infames e suas imagens violentas."

"O medo é criado quando certas condições são cumpridas. Um deles envolve a aparência. Quanto mais bizarra e feia a imagem, maior o medo. É simples de fazer um retrato assustador, mas para fazer uma ação assustadora, é uma questão bem diferente. É aí que vem toda brutalidade.

Quando eu fiz Nekomen em 1963, fiz a escolha deliberada de ir até meus limites. Eu nunca olhei para trás!"


Bom, sempre há o que falar sobre Umezu, mas vamos ficando por aqui. Mas não custa nada lembrar o fato dele ser um dos primeiros artistas a se aprofundar no gênero de horror e influenciar vários autores e artistas ao longo dos anos. E mesmo que sua relevância não se resuma a um gênero apenas, seu pioneirismo lhe deu o status de o grande mestre dos quadrinhos de horror, que é ressaltado com o fato da premiação mais importante deste gênero, levar o seu nome: Prêmio Umezu. Depois de vários países que tiveram o privilegio de ter seus mangás publicados, ficamos na espera aqui no Brasil, que algum dia algo dele possa vir pra cá. Gwashi!




"Como foi recebido pelo público em geral?"

"Oh, você sabe, eu recebi cartas de pais reclamando que, Você não pode mostrar este tipo de brutalidade para as crianças!"

Eu lembro que havia uma velha que trabalhava em uma loja Kashihon. Toda vez que eu ia lá ela me palestrava, "Eu nunca, jamais deixarei as crianças lerem esta porcaria!" Então, três anos mais tarde, com o sucesso e expansão do horror, lojas como a dela são inundadas com as crianças olhando para os meus mangás. Os proprietários de lojas precisam acompanhar a modernidade! (Risos)
Ela estava sempre protestando, mas nunca boicotou. Eu considerei essas críticas como uma forma de consagração."

"Isso mostra que seu trabalho teve um impacto nas pessoas."


 "É claro que eu fui parado em algumas áreas. Por exemplo, em Hangyo-Jin, há uma parte onde um personagem tem sua boca aberta com uma faca, deixando uma fenda enorme. O editor disse-me para fazer a ferida menor, mas ai teria matado a cena! Então fiz o que ele disse e usei truques de perspectiva de fazer a ferida parecer enorme."




"Qual dos seus trabalhos que você recomendaria para pessoas como nós na casa dos 20 anos?"



The Drifting Classroom! Eu considero meu melhor trabalho. A mensagem é clara e o drama é de altíssima qualidade.

***
"Aprendi muitas coisas do Tezuka quando era criança, mas este foi o mais importante: Ele não fez rodeios ou empobreceu suas obras por causa das crianças. Ele lidou com temas complicados e deixou os leitores resolverem isso por conta própria."

- Kazuo Umezu