quinta-feira, 24 de abril de 2014

Metamorfose e Ping Pong

Calma que não é a do Gregor Samsa!
Este não é um texto sobre o fantástico Ping Pong The Animation. Na verdade é. Quer dizer, não particularmente sobre, mas com relação a determinada passagem do episódio 02. Verdade seja dita, foi o que me motivou a escrevê-lo. Quando me referi à Ping Pong como fantástico, eu estava pensando em como a série [nestes 02 episódios iniciais] alinha com uma fluidez envolvente imagens, roteiro e sons, criando uma narrativa que cresce gradativamente – num crescente de intensidade – até explodir em um clímax inquietante. Em particular neste episódio 02, o clímax se assemelha ao gozo, característica realçada nas feições do professor e mestre do protagonista Smile, que vai ao chão plenamente realizado física e mentalmente.

É uma série que usa muito bem os seus recursos. Todos os elementos individuais se integram para contar uma história, cada partícula contém um fragmento dessa história que está sendo contada. As características e ações do Smile – leia-se: seu comportamento fora e dentro das quadras – dizem muito sobre quem é e como pensa. Então, quando apareceu um professor que acreditava em seu potencial, acuando e levando-o ao limite numa partida, você não tem apenas uma trama sobre os conflitos internos do protagonista como também um clássico recurso de aprendizado convergindo numa partida esportiva intensa e vibrante – que converge numa climática explosão emocional. É o clássico treinamento, mas aqui executado em apenas um episódio. É que o lance de Smile é mais psicológico que técnica. A narrativa desenvolve o centro esportivo do enredo e ao mesmo tempo, usando o ping pong, desenvolve os conflitos dos personagens. Seu desenvolver ocorre concomitantemente com o seu desenvolver como atleta. O autor usa de uma linguagem simples em que qualquer pessoa consegue absorver, apenas olhando e sentindo. As palavras têm alcance maior quando apenas refletem as ações dos personagens, ao invés de exercer a complexa função de explicar o que ele está a sentir.

Este é o papel fundamental da imagem, um recurso utilizado desde tempos mitológicos quando as primeiras pessoas a viver neste planeta registravam seu conhecimento em pedras. Brincar com esses signos tem sido um fetiche da mídia visual.
Ping Pong The Animation
Smile é um garoto introvertido, tendo sofrido bullying na infância e adolescência – pelos mesmos motivos que grande parte das vitimas dessa anomalia social: apenas por não aderir à ciranda, preferindo ficar no seu canto – ele cresceu determinado a evitar todos e quaisquer conflitos, ainda que para isso precisasse se reprimir. Pela ausência de desafios em seu cotidiano, ele acaba por viver uma vida apática, muito disso sendo um reflexo do seu extremo talento (essa sua característica como jogador é o que o define como pessoa no círculo social), que não desperta nenhum sinal de rivalidade em seu interior. Seu processo de despertar vem com o treinamento. Quando seu professor tem sucesso em fazê-lo se abrir novamente ao competir como um predador, sem se reprimir, Smile deixa de ser um vegetal e se transforma numa máquina. É então que ocorre uma de minhas sequências preferidas na série: da apatia à explosão emocional (de uma sombra com fisionomia humana, mas sem traços de personalidade; apático, apagado, cabisbaixo ao fulgor de uma máquina explosiva exibindo todo seu potencial), uma transformação que é simbolizada em cena pela metamorfose de uma larva em borboleta. 
Clube de Compras Dallas - Espero que vocês não tenham ataques epilépticos! DESCULPEM!!
É um recurso usado frequentemente em mídias visuais para denotar transformação e renascimento. Nem sempre claro, pode acontecer de ela ser apenas um elemento natural da paisagem ou algo assim, mas quando seu signo é utilizado para complementar o conceito de um personagem, pode render sequencias repletas de significados. É o caso do filme Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), que conta a história de um cowboy extremamente homofobico que se descobre portador do vírus da AIDS. O filme narra seu despertar em uma nova pessoa, quando impelido pela doença, desperta uma sensibilidade tão comum quando lidamos com a morte, ao ponto de se tornar amigo intimo de um gay (que é vivido lindamente pelo Deus grego do Jerad Leto!). Algo que seria impensável antes de sua transformação. É neste ponto crucial em sua vida, que acontece a bela sequência em que ele abre os braços, fecha os olhos – enquanto é coberto por diversas borboletas. É o momento em que ele se redescobre por inteiro.

Entre muitas obras, Efeito Borboleta (The Butterfly Effect) e Nijigahara Holograph são algumas que fazem uso intrínseco das borboletas eu seus enredos. Inclusive, em Nijigahara Holograph, as borboletas chegam a consumir [metaforicamente] o corpo do protagonista – elas estão por todos os cantos nessa obra e sintetizam o caráter mutante de todos os personagens, que no decorrer da vida passaram por diversas metamorfoses, embora o protagonista continue preso num ciclo infindável tal qual o de Efeito Borboleta. 
Nijigahara Holograph
As borboletas simbolizam o ciclo da vida, de morte e renascimento. Já diriam vários poetas, profissionais e amadores; assim que se nasce, já se começa a morrer. O final traz consigo um novo começo. Essa simbologia da borboleta é similar à das cigarras, porém tem origem nos mitos gregos. Com a figura feminina sendo representada como a personificação da alma, exibindo lindas asas de borboleta, diz-se que a alma era como a borboleta – simbolizando seu espirito imortal. Quando a pessoa morria, seu espirito abandonava este corpo na forma de borboleta. Faz sentido, afinal, o seu ciclo passa pela fase do ovo; da larva; do casulo e finalmente a esplendorosa forma final; a transformação onde a crisálida morre para que possa nascer a borboleta. Cada cultura tem a sua própria crença, ou várias, fazendo com que esse mito possua tantas variações quanto os dedos das mãos. Mas, falando de japoneses, a crença na filosofia de Buda onde a morte não é realmente o fim e sim um novo começo em que se pode reencarnar nas mais variadas formas, é evidente em como sua cultura se apega com afinco a essa filosofia dos ciclos nas mais diversas obras.

A beleza nessa filosofia é a de que esses estágios cíclicos não precisam ser traumáticos, mas a nossa incompreensão, complexos e imaturidade fazem com que nos debatemos, tornando a experiência dolorosa até alcançarmos a plena maturidade do último estágio. Psycho-Pass e Oyasumi Punpun são duas obras que não utilizam do signo da borboleta, mas que tem embutido em sua moral essa filosofia – não por acaso, é só e apenas no último momento em que seus personagens compreendem a magnitude do mundo que os rodeia e então passa a encará-lo com uma nova mentalidade. Assim como as borboletas, que seguem o fluxo normal de amadurecer e se transformar, abandonando a zona de conforto do seu casulo a fim de explorar um novo mundo que se abre diante de si, sem receios de abrir suas asas e voar em sua imensidão. Porém, é exatamente essa perspectiva singular sobre a vida que nos difere de todas as demais espécies que coabitam este planeta. Para um garoto como Smile, permanecer no conforto do seu casulo [físico e mental] e evitar os atritos é uma experiência bem mais tentadora do que encarar um mundo ameaçador.
O que há de muito belo nessa neologia com as borboletas, é que todas as etapas para a sua evolução seguem uma lógica que também é imprescindível para nós. Não se deve apressar, nem mesmo estagnar. Cada estágio é uma preparação para a etapa seguinte, como diria aquele poema (Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.). Não é de se estranhar que crenças populares nos assemelhem com o ciclo das borboletas, que também carregam consigo o prisma da sedução e mistério. Nossa existência é breve, tal quais algumas mariposas que só vivem 24 horas, mas estas só podem exibir suas belas formas uma única vez, já Smile pode abrir suas asas incontáveis vezes. Apesar disso, seja qual for o tempo de vida de cada especie neste planeta, a questão filosófica estará sempre incomodando: qual o proposito da vida? Para os evolucionistas, não há proposito. Surgir, multiplicar e evoluir. Mas animais, insetos e criaturas diversas não sofrem crises existenciais. Eles simplesmente são. Enquanto eles querem apenas passar seu gene adiante, nos não nos contentamos em apenas ser. Também queremos ter. Logo, podemos imaginar que ser um robô não será o suficiente para satisfazer Smile. 

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