domingo, 3 de maio de 2020

Tenki no Ko (Weathering with You) - Makoto Shinkai


Saudações do Crítico Nippon!

Ao escrever sobre Kimi No Na Wa (Your Name), o filme mais bem sucedido de Makoto Shinkai e que definitivamente o tornou conhecido fora da bolha otaku, disse que: “não só é formidável como romance, mas como uma quase ficção científica, que desenvolve ao máximo, com propriedade e segurança, seus conceitos e ideias”. Infelizmente, esta nova obra não faz nada disso. Conta com um romance que jamais é desenvolvido e bruxarias mágicas que não entendemos completamente as regras do que está ocorrendo. Em suma, é uma grande bagunça.

(SEM SPOILERS)





Morishima Hokada é um garoto de 16 anos que se muda sozinho para Tóquio, onde precisa arrumar emprego e se sustentar sendo menor de idade e sem qualquer documento. Acompanhamos suas dificuldades e lutas diárias para manter um quartinho extremamente apertado, enquanto é rejeitado nos mais diversos serviços. O que ocorreu com este garoto em sua cidade natal a ponto de preferir passar por todas essas dificuldades sozinho? O filme jamais responde, em uma das inúmeras gafes cometidas pelo roteiro sem pé nem cabeça. Ah sim, e ele encontra Hina, uma menina que controla o clima, como a Tempestade dos X-men (com direito a raios e tudo).



O filme conta com inúmeras coincidências absurdas, como quando Hokada encontra Kei no barco já lhe oferecendo ajuda; encontra totalmente por acaso uma arma (juro, no lixo, aham); encontra o irmão de Hina no ônibus; encontra Hina pela segunda vez sendo perturbada no meio da rua; encontra vários policiais desconfiados ao longo de Tóquio – estes, aliás, não tem muito o que fazer e ficam parando adolescentes na rua.

Como se não bastasse, em apenas meia hora de filme o casal já vira melhores amigos, Hokada já aceita os poderes de Hina normalmente (aliás, todo mundo aceita), e criam um modelo de negócios que beira o absurdo, mas é bem sucedido. Aliás, é difícil compreender em que mundo vivem aqueles personagens. Como já mencionado, todos aceitam os poderes de Hina, além de não se preocuparem muito com gigantes bolhas de água no céu, ou pequenas bolhas em formato de bichinhos. E quando uma catástrofe ocorre ao final, parece um leve inconveniente na vida daqueles cidadãos, sem abalar muito ninguém. Fica difícil se identificar com personagens que não ficam em choque com nada.


Tenki no Ko ainda utiliza uma muleta preguiçosa na personagem de Natsumi, com frases como “A esposa dele morreu em um acidente há alguns anos. Mas ele ainda está apaixonado por ela” ou “Você fumou um maço de cigarros e bebeu por se sentir culpado?”. Especialista em traduzir o óbvio. Já Kei se revela o genérico personagem de anime mulherengo, relaxado, que fuma e bebe, consigo pensar em uma dezena deles. E o irmão de Hina é uma adição completamente irrelevante.


Mais grave é o ritmo cadenciado do filme. Tenki no Ko soa extremamente longo, apesar de ter menos de duas horas. É arrastado, sem energia, sem qualquer sequência memorável. Repleto de subtramas que começam a terminam em minutos (percebam a rapidez absurda com que o filme pula da montagem de Hokada aprendendo a trabalhar para Kei, para a montagem em que cria um negócio próprio com Hina. Spoiler: ocorre tudo em vinte minutos). O filme ainda faz uma longa pausa na metade para incluir um fanservice completamente desnecessário de outros personagens de filmes anteriores do Shinkai. E nesse ponto do longa você irá notar que não há história nenhuma em desenvolvimento. Não há qualquer expectativa de que algo aconteça a seguir, pois esqueceram de escrever uma trama.


É aí que absolutamente do nada surge uma trama com policiais atrás de crianças (eu não estou brincando, a polícia inteira de Tóquio está preocupadíssima em perseguir crianças na rua). Aliás, Tenki no Ko jamais acerta o tom de sua história, ora colocando armas de fogo e violência física contra crianças; ora criando montagens energéticas e kawaiis pra combinar com Your Name; ora acrescentando detetives; ora seres fantásticos; ora romance (na teoria apenas, porque quando Hokada diz que pretende se declarar, eu literalmente gritei incrédulo pois nada havia sido desenvolvido). E quando três heróis estão em um quarto de hotel brincando após suas vidas virarem completamente do avesso, eu não fazia ideia do que eu deveria sentir ali. Alegria? Tristeza? Tensão? Carinho? Nem ideia.




Apesar de tudo, claro, como não poderia deixar de ser, as cores e os cenários são deslumbrantes. Percebam o tom dourado do céu e da cidade após uma chuva, é de querer colocar os quadros na parede. A quantidade de detalhes em cada ambiente é louvável, por exemplo, a casa de Kei completamente amontoada de objetos bagunçados, refletindo a personalidade dele e Natsumi. Há também a casa de Hina com cerca-viva abundante, dando indícios de sua ligação com a natureza. E percebam a cor da mão da garota quando colocada contra o sol, ganhando um tom incrivelmente realista.


Infelizmente, esses quadros maravilhosos não são suficientes para manter a atenção no longa. A perseguição com a polícia ao final é implausível demais, só para tentar nos manter acordado. E o pior, as ações dos próprios heróis naquele prédio abandonando são absolutamente reprováveis, sendo completamente impossível escolher quem está certo naquela bagunça (eu imagino que ninguém esteja).

Deste modo, fica cada vez mais complicado sentir algo por um filme que não nos apresentou corretamente suas regras. E esse único parágrafo terá leves spoilers, então pule para o parágrafo final: Por que soa tão natural pros outros aquelas bolhas e peixes de água? E o que exatamente ocorreu com Hina? Aquela queda de Hokada e Hina de mãos dadas foi um devaneio ou aconteceu de verdade? Por que ela reaparece rezando ao final? Eu posso até ter algumas teorias sobre algumas destas questões, mas o filme deveria esclarecer melhor.

É uma pena que após abrir uma janela de visibilidade tão grande para si, Makoto Shinkai tenha apostado no que sabe fazer de menos, seres mágicos e violência. Hoshi wo ou Kodomo foi igualzinho, talvez até pior, e pelo visto não se deu conta. Mas assim como depois daquela bomba ele nos presenteou com o adorável Kotonoha no Niwa, tenho certeza que daqui 2 anos teremos um filme mais pé no chão, apenas um agridoce romance. Aguardo ansioso, porque não foi dessa vez.



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Twitter: @PedroSEkman

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