Saudações!
Começo esse texto garantindo que você nunca verá uma qualidade de cores e arte como a vista nas obras do mestre Makoto Shinkai. Isso é fato. E ainda que os personagens do consagrado Hayao Miyazaki se movam como uma fluidez incrível (não é a toa que A Viagem de Chiriro ganhou Oscar de melhor animação), em nenhum momento chegam perto dos quadros belíssimos das obras de Makoto. Você poderia tirar fotografias de todos os filmes (Hoshi no Koe, Kumo no Mukou Yakusoku no Basho) , o tempo inteiro, e pendurar na parede da sua casa, tamanha a beleza de todos. É como ver o nosso próprio mundo, prosaico e cotidiano, mas com outros olhos. Como se víssemos através de um vidro mágico que transformasse até mesmo o mais simples dos locais (estações, mercados, ruas, árvores) nas paisagens mais belas do mundo. E esse feito, por si só, é digno de merecer assistir a todos os filmes desse incrível autor.
Contudo, o foco desse texto será aquele que, para mim, é sua obra prima: Byousoku 5 Centimeter.
(Todas as imagens podem ser ampliadas clicando em cima)
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Dividido em 3 “episódios”, o filme já começa com a explicação do porque do título do longa, que tem a ver com a distância (o tema central) e o tempo da queda das pétalas da cerejeira. Após uma brevíssima introdução dos protagonistas juntos quando pequenos, somos saltados no tempo, enquanto estes trocam cartas de saudades, agora um pouco mais velhos. A menina Akari mudou-se de cidade, e muito em breve, o menino Takaki faria o mesmo, ficando ainda mais longe.
E o conteúdo das cartas, podendo parecer estranho àqueles que nunca tiveram o costume de se corresponder por elas – o que não é o meu caso – é extremamente normal e não particularmente romântico. O assunto varia em contar como está o tempo, ou simplesmente acontecimentos prosaicos (“Ontem vesti meu suéter pela primeira vez”). Não importa se as palavras são bonitas ou não, a paixão é demonstrada através da insistência e vontade em continuarem se correspondendo. E por ouvirmos a voz da Akari narrando sua carta ao longo de várias cenas do cotidiano do protagonista Takaki, é uma maneira de nos mostrar como aquelas simples palavras se mantém vivas no garoto ao longo de todas aquelas atividades e de todos aqueles dias.
O filme não se preocupa em criar subtramas no primeiro ato (“episódio”), mantendo-nos totalmente mergulhado nos pensamentos e anseios que os dois tem de se encontrarem (principalmente de Takaki, que ocupa mais tempo na tela ao longo do filme todo). E é só isso que importa. Acompanhamos o nervosismo de estarem sendo transferidos cada vez mais para longe, a preocupação do trem atrasando, a demora na espera em que minutos parecem horas. Tudo para ficarmos tão ansiosos quanto eles, o que automaticamente nos faz torcer imensamente para que aquilo tudo dê certo.
Com flashbacks pontuais do casal ainda juntos no passado, são os únicos momentos de cores realmente quentes na tela. Vagos raios solares banham seus pequenos rostos, até então compartilhando do mesmo espaço físico. Enquanto nos momentos do “presente” estão sempre mergulhados em sombra ou em luzes artificiais de ambientes fechados. Até mesmo o primeiro beijo dos dois é em um lugar frio e escuro, afinal, aquilo só os deixará ficar com ainda mais saudades um do outro.
Fazendo inúmeros cortes com sua câmera, mostrando diversas imagens que parecem escolhidas totalmente por acaso (uma lata amassada no chão, ramos de árvores perdidos), é quase como acompanhar o vago olhar vidrado apaixonado de ambos isolados um do outro. Insistindo em filmar os pássaros no céu, como se dissesse que eles nunca poderiam se locomover daquela maneira para se encontrarem. Comprovando isso numa brevíssima seqüência no início do filme, ao acompanhar o vôo de uma ave que sai do ambiente de Takaki e, ao som da voz de Akari, voa até onde ela está em questão de uma noite (missão impossível para os pequenos pombinhos, com o perdão do trocadilho).
Fazendo a câmera filmar sempre planos abertos, salientando o isolamento dos personagens, desde mostrar de longe a sala de aula sempre vazia, ou os campos de futebol, prédios ou colinas no campo. Mantendo a claridade sempre afastada, evocando a melancolia que o pôr do sol traz em seus resquícios alaranjados, é como se acompanhássemos o modo que aqueles personagens enxergam o mundo ao seu redor. Sem a pessoa amada por perto, tudo fica escuro, enquanto a luz (a pessoa prometida, o amor) se mantem sempre distante e inalcançável.
E conseguindo ainda a proeza de criar uma terceira personagem complexa e querida para o público na parte 2, a garota Sumida. Esta que, nutrindo um amor platônico por Takaki, sofre com o distanciamento deste que, embora junto dela fisicamente, os pensamentos do garoto estão longe, voltados para outra. Sumida se tornaria a personagem mais trágica do filme se não fosse pela revelação da natureza das mensagens de celular de Takaki, que se mostra quase doentio.


Deste modo, 5 Centímetros por Segundo consegue fazer com que soframos por todos os seus personagens, ao mesmo tempo em que em nenhum momento deixamos de torcer genuinamente por eles. É uma história inocente e pura, sobre jovens seres simplesmente querendo ficar juntos um do outro. O final agridoce ao som da belíssima canção “One more time, one more chance”, encerra com maestria mais uma obra de Makoto Shinkai sobre distância – seja ela física ou mental. E ainda que para alguns seja triste, não poderíamos esperar mais do final de uma história como essa. Aliás, seria até injusto para aqueles que seguiram adiante.
@PedroSEkman