Vamos falar de músicas antigas.
Não exatamente, vamos falar sobre regravações de músicas
antigas. Os arranjos, os interpretes, a melodia, muda com o tempo, mas o
sentimento continua igual. E nesse resgate de canções, algumas músicas chegam a
aparecer em séries que são completamente distintas entre si. Então, hoje vou
comentar sobre algumas, num post um pouco mais didático, talvez (?). Será que você consegue perceber a relação entre todas?
5) Mune Kyun Kimi ni (Maria†Holic)
Oh, como eu gosto das animações de abertura e encerramento
do estúdio SHAFT, são sempre criativas. A trilha sonora do shoujo-ai
satirizado, Maria†Holic, é fantástica, ao contrário do anime que divide
opiniões. Mune Kyun Kimi ni é cantada pelas seiyuus/dubladoras das personagens,
Asami Sanada (Kanako), Kobayashi (Mariya), e Marina Inoue (Matsurika) – E a
música já é super divertida, então eu fico imaginando como não deve ter sido o
clima nos bastires! Pura fiesta, piração total porque algumas seiyuus são
simplesmente malucas, quando se juntam então!! Lembrando que elas também
aprontam também no encerramento da segunda temporada, Maria†Holic Alive.
E eu disse que adorava as aberturas e encerramentos do
estúdio SHAFT, e algumas das melhores foram produzidas pelo grupo [de dois
integrantes] independente Gekidan Inu Curry. Sabe todas aquelas OP/ED
coloridinhas, exóticas, parecendo artesanal/teatral, e com todo um primor
artístico? Foram feitas por eles. Com
diversas imagens sobrepostas misturadas com animação e personagens 8 bits que
fazem parecer um grande jogo de árcade, é um das mais criativas que já vi.
A versão original é do grupo Naughty Boys (OH
GOD...NO....GOD...NO), gravada em 1978, e não tem essa roupagem 8 bits, mas o
clip da música é bem divertida, apesar de hiper brega e datado. E claro,
naquele momento a música japa sofria uma vasta influência da música europeia,
onde a característica sempre foi atenuar a vibração rocker de suas composições,
privilegiando bem mais os contornos pop, com sintetizações e teclados ganhando
maior preponderância melódica, bem como acordes de guitarra modificados ou
estendidos pelo uso de pedais e o intenso frenesi eletrônico. Eles também foram à única banda technopop
japonesa a chegar ao topo do Oricon. Eles foram os precursores do
pop-eletrônico com a sua ampla utilização de sintetizadores para samplers e
computadores no Japão.
4) Down by the Salley Gardens (Fractale)
Eu seria excomungada se dissesse que o encerramento de
Fractale (2011) é a melhor parte do anime? Fractale, do diretor autoproclamado
salvador da animação japonesa Yutaka Yamamoto, é o primeiro Sci-Fi de calcinha do
bloco noitaminA. Uma confissão: Apesar de uma ou outra coisa ter me
desagradado, tenho certa paixãozinha pelo anime.
O encerramento, ao contrário, é perfeito. A primeira vez que
vi essa animação, com a Nessa sentada de costas para o vídeo, olhando a vasta
paisagem a se perder de vista, com o vento assoprando forte, com os seus
cabelos, as nuvens e as gramas balançando no ritmo da melodia, me remeteu a uma
atmosfera de nostalgia. Também me lembrou o encerramento de Vampire Princess Miyu (meu anime de vampiro preferido).
Interpretada pela cantora Hitomi Azuma, Down by the Salley
Gardens era uma canção relativamente desconhecida no ocidente e no Japão. Foi
descoberta em um festival de concertos indie, que reúna diversos artistas a
cada ano no Japão, a partir daí, foi questão de tempo até aparecer uma
regravação para um anime noitaminA, e como todo produto deste bloco, foi difundida
nos EUA e não demorou para que a linda canção chamasse a atenção do público
ocasional.
Fractale tem o cenário de uma Irlanda futurista, com uma
arte deslumbrante e um cenário vasto que ironicamente, dá uma sensação de
liberdade, numa trama distópica. A tom da trilha é tradicionalmente irlandesa,
onde sua atmosfera folclórica faz um contraste absoluto com o restante da
trilha permeado por techno e pop. A Hitomi Azuma se mostra bem expressiva, mas
como quase todo artista japonesa, acaba pecando em alguns momentos na pronuncia
em inglês. Isso acontece porque a Azuma varia entre inglês e japonês na música,
e com a natureza multisilábica japonesa, acaba resultando numa dissonância
rítmica. Mas, ainda que sua versão seja assumidamente
inferior a original, ela consegue transmitir perfeitamente toda a melancolia da
letra com um timbre seguro, com suavidade e nostalgia.
A história que envolve a música original é bem curiosa. Veja
bem, na verdade se trata de um poema do poeta irlandês William Butler
Yeats (1865–1939), publicado em 1889 no livro The Wanderings of Oisin and Other
Poems, que depois passou a ser cantado por diversos artistas em festivais. É tido como um dos poemas mais notáveis da Irlanda, e Yeats o teria
concebido baseado em uma antiga canção entoada por uma camponesa de
Ballysodare, Sligo. Em uma nota, ele diria que foi "uma tentativa de
reconstruir uma antiga canção de três linhas imperfeitamente lembradas por uma
velha camponesa”. Yeats é considerado um dos maiores nomes da literatura
irlandesa de todos os tempos, e embora seja pouco conhecido no Brasil, foi
ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1923.
Agora, o que interessa mesmo é o poema cantado, que conta
uma história de um triste amor não realizado e uma vida que passou
despercebida. Apenas passou, como o amor do protagonista de Byousoku 5 Centimeter. O curto poema é repleto de metáforas, com Yeats refletindo a
efemeridade da vida e a sua passagem, que pode ser muito dolorosa. Uma linda composição
permeado por lembras tristes, mas ao mesmo tempo feels good, do passado e
presente. O trecho "In a field by the river my love and I did stand/And on
my leaning shoulder she laid her snow-white hand", chegou a ser regravado
pelo U2, na música "Wild Irish Rose".
E beeem, quem assistiu ao final de Fractale, deve saber o
quanto a letra se encaixa na história. A música é relaxante e nos transporta
para dentro de nós, sem que percebamos. A canção foi regravada diversas vezes.
Pelos jardins de salgueiros meu amor e eu nos encontramos/Ela
passou pelos jardins de salgueiros com os pés brancos como neve/Ela pediu-me
para ir com calma com o amor, assim como as folhas crescem na árvore/Mas eu,
sendo jovem e tolo com ela não concordei/Em um campo à beira do rio, meu amor e
eu ficamos/E inclinada no meu ombro ela colocou sua mão branca como neve/Ela
pediu-me para ir com calma na vida, como a erva cresce nos açudes/Mas eu era
jovem e tolo, e agora estou cheio de lágrimas.
P.s: Perdão, acho que me empolguei aqui.
3) Kimi ga Kureta Mono (AnoHana)
Quem conseguia pular o encerramento de AnoHana com essa
música? A cada clifhanger emocionante, eu ficava parada olhando pro vídeo e
absorvendo aquela letra que parecia ter sido escrita especialmente para os
personagens do anime. Cantada lindamente pela Ai Kayano (Menma), Tomatsu Haruka ("Analu"/Anjou) e Hayami
Saori (Tsuruko), seyiuus das três principais personagens femininas do anime, a bela
canção tem uma letra que se encaixa perfeitamente com o tema da série, mas é
uma [das várias] regravação da música original do já extinto grupo idol ZONE,
de 2001. Não é o primeiro single do quarteto de garotas, mas é o seu maior hit.
Verdade que há diversas gravações, algumas até retiram essa
nuance agridoce, mas com a nova versão para o anime AnoHana a música voltou a
fazer um sucesso incrível, e claro, com a deixa dada pelos executivos da Sony
Music [AnoHana é um anime do estúdio A1-Pictures, da produtora Aniplex, braço
da Sony], as garotas voltaram em uma rápida participação para um tributo ao falecido
ZONE. Bem, nem todas. De qualquer forma, prefiro a versão cantada pelas
dubladoras, que tem um quê mais agridoce, que se adequa ao tema nostalgia
proposto pelo anime, aquele tempo mágico entre o fim da infância e a entrada na
adolescência. E a animação com da abertura alternando entre as versões adolescentes e crianças das garotas, que observa o seu passado, em meio a flores estilizadas de várias cores, é um lindo (fangirl aqui).
2) Yasashisa ni Tsutsumareta Nara (Kiki's Delivery Service)
O Serviço de Entregas da Kiki (Kiki's Delivery Service) é um
dos melhores filmes do estúdio Ghibli, onde ainda é possível perceber aqueles
sentimentos mágicos que parece transbordar dentro de você num feeling quase incompreensível,
há muito perdida pelo Miyazaki. É tipo aquilo, você gosta, te faz bem, mas é impossível
transformar esses sentimentos em palavras, sem que se perca alguma coisa no processo. É melhor sentido, do que expresso. E a
música, Yasashisa ni Tsutsumareta Nara, que toca no encerramento do filme,
parece justificar ainda mais essa sentença.
A canção é cantada por Yumi Matsutoya, lançada em 1974 –
Certamente algo atípico, pela sua roupagem country [o sertanejo dos gringos],
mas era um período de larga influência americana e a música fez bastante
sucesso, assim como a própria cantora, que é um dos ícones da música pop japonesa.
Yumi Matsutoya na época ainda usava o seu nome de solteira, Yumi Arai, mas a
música ainda é creditada com este nome. O filme é de 1989, mas a música que
fala sobre recordações da infância “Quando eu era uma criança, Deus estava lá e
fez meu misterioso sonho se tornar realidade/Com este terno sentimento, mesmo
se eu for um adulto quando eu acordar, um milagre vai acontecer”, consegue se
ajustar perfeitamente ao feeling nostálgico da história, pois Kiki é uma fabula
sobre o crescer, mas sem perder aquele espirito infantil.
Vinte anos depois, a canção volta, mas dessa vez na voz da DIVA Maaya Sakamoto, no OVA de Tamayura. A interpretação e os arranjos estão
diferentes do original, mas a performance da Maaya é simplesmente fantástica. E embora, a canção esteja com um arranjo diferente, aquele toque de atmosfera
otimista, e ao mesmo tempo saudosista, continua a mesma.
Um ano depois, na série de tv Tamayura ~hitotose~, não é a Yumi
Arai, nem a Maaya (GENTE, ESSA MULHER É INCRIVEL!!!!!!!!!), mas o grupo Marble,
numa insert song do episódio 04, em voz e violão. E é com esse arranjo
simples, que fica mais nítido o quanto essa música é bonita.
1) Tsubasa wo Kudasai (A música de Neon Genesis Evangelion)
Não tenho muito o que acrescentar aqui, não. Para mais
detalhes sobre a música em relação a Evangelion, há um post especial sobre acanção.
A música original é do tradicional grupo folk, Akaitori, foi
lançada de 1971. Composta para um festival, e gravada no lado B do disco da
banda, a música vendeu milhões. Anos mais tarde, a editora Geijutsu Kyoiku Sha
a incluiu em livros, fazendo com que ela fosse cantada em várias escolas. Se
tornou um hino escolar ultra popular, cantado em coros pelos japoneses. A música
é tão importante para eles, que se tornou a canção oficial do time de futebol japonês
em 1998, levando-os as lágrimas. O apelo, claro, é puramente nostálgico,
representa um Japão diferente do atual, mascaradamente forte e potente. Também
representa o valor a velhas tradições.
Foi exportada, foi cantada por diversos artistas americanos,
entre eles, Susan Boyle com sua bela voz.
Em K-On! as letras permanecem iguais, com direito a coro
durante o refrão, mas o gênero da música muda radicalmente, com a pegada
rocker. É cantada por Yoko Hikasa (Mio Akiyama), com Satomi Sato (Ritsu
Tainaka) e Minako Kotobuki (Tsumugi Kotobuki) formando o coro. É a primeira vez
que mudam completamente a sonoridade dessa música.
Em Nichijou, ela aparece apenas no encerramento do episódio
14, representando uma divisão na série, que agora contaria com uma música
diferente a cada encerramento. É uma regravação convencional, embora com um
apelo mais atual.
A Kawasumi Ayako também fez sua versão, para o anime Ookami-san
to Shichinin no Nakama-tachi, como Character Song.
***
Se você ainda não percebeu, o que eu acho bem difícil, é que com exceção de Secret Base, que retornou mais como tacada de marketing fenomenal, todas as canções são envoltas em nostalgia, fazendo co-relação sensacional com o argumento da série. Neste ponto, mesmo Secret Base, se adeque perfeitamente. E é isso aí, até a próxima.