segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Tartaruga Vermelha (2016)

Saudações do Crítico Nippon!


A Tartaruga Vermelha, aparentemente, traz o clássico embate do Homem vs Natureza, mas com o encantamento de uma animação coproduzida pelo Studio Ghibli e auxiliada por Isao Takahata, diretor do fenomenal O Conto da Princesa Kaguya. Desprovido de qualquer diálogo, é um filme intenso e mágico, puramente visual e sensorial. As imagens e os sons contam tudo que precisamos saber, afinal, essa é a função do audiovisual. Aliás, esse estilo me lembrou bastante a recente obra-prima nacional O Menino e o Mundo.


Dirigido e escrito por Michael Dudok de Wit, o filme acompanha um náufrago que vai parar em uma ilha deserta após uma violenta tempestade. Pelas roupas brancas e o bote que estava com ele, é possível supor que se trata de um marinheiro. Assim, o Homem tenta inúmeras vezes escapar do local em uma jangada feita de bambu, que sempre é destruída pela tartaruga título. Após alguns conflitos, e de forma tão fantasiosa quanto ter sido criada de uma costela, surge a Mulher.

É como estarmos vendo o único casal da humanidade (primeiro a costela, depois Adão e Eva...), e o fato de não possuírem nomes torna sua representação ainda mais universal. Aliás, o próprio design do filme, que mescla CG e backgrounds que parecem verdadeiras pinturas, contribuem com o tom fabulesco de tudo que estamos vendo. A animação, como não poderia deixar de ser devido aos envolvidos, é absolutamente impecável. Desde o contraste de luzes que vemos na ilha ao longo das horas do dia, às imagens da jangada na imensidão do horizonte, até às folhagens abundantes do bambuzal. E percebam a naturalidade absurda de movimentos como o Homem retirando um caranguejo da calça, ou a leve quicada do bambu em suas mãos ao segurá-lo. 





Com uma fotografia distante que valoriza a animação e aquele ecossistema, ao mesmo tempo em que contribui para o isolamento daqueles indivíduos que sempre aparecem diminutos de corpo inteiro.  Aliás, apesar de contarem com uma trilha sonora absolutamente espetacular e evocativa, o diretor é inteligente o bastante para criar tensão justamente ao não utilizá-la. Como no momento em que o personagem cai em uma caverna subterrânea, desprovida de qualquer espetacularização ou cortes abruptos, a urgência vem justamente da crueza visceral com que é retratada.

Conduzindo o filme com uma segurança admirável, Michael Wit cria transições inteligentes como ao passar do corpo estendido do Homem para a ilha, cujo formato se mostra idêntico. A cor da tartaruga, aliás, é a perfeita combinação de seu significado, representando perigo inicial e culminando em paixão. E a passagem do tempo é sentida de forma bastante orgânica, como a barba crescendo, a roupa se desgastando, entre outros. O retrato da fauna é feito com preciosismo, desde as tartaruguinhas nascendo, aos crescentes caranguejos, até às formigas que caminham sobre o corpo do Homem.


A Tartaruga Vermelha se transforma completamente em sua segunda metade, mergulhando o espectador em uma narrativa doce e profundamente humana. Sem deixar de contar com perigos reais, o filme evoca sentimentos universais, como a finitude da vida, reflexões sobre a nossa ínfima trajetória aqui na Terra e o amor que temos uns pelos outros. Deliciosamente aberto a interpretações, é um filme maduro e que facilmente provoca lágrimas tamanho envolvimento.


(Para mais dos meus textos, só ir no menu "Crítico Nippon")
Twitter: @PedroSEkman

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Os comentários deste blog são moderados, então pode demorar alguns minutos até serem aprovados. Deixe seu comentário, ele é um importante feedback.