sábado, 8 de outubro de 2011

REC e o Charme de Audrey Hepburn


Breakfast at Tiffany's, é tido como o filme mais elegante de todos os tempos pela grande crítica, está completando 50 anos essa semana e por mais que, “Bonequinha de Luxo”, não seja um dos meus filmes preferidos, tem uma das atrizes mais fotogênicas e que soube como ninguém, chamar todos os holofotes pra si quando estava em cena, falo de Audrey Hepburn. Bonequinha de Luxo representa em toda sua autocensura, o surgimento da mulher moderna, e por mais que o filme teve que ser suavizado (se trata de uma adaptação do romance de Truman Capote – Critico ferrenho da sociedade americana e tido como a língua mais ferina de Nova York, na época), devido à sociedade conservadora e o medo de Hollywood em confronta-la, ainda dá pra perceber a essência fundamental da obra original, afinal, a personagem de Audrey ainda é uma prostituta. Isso por mais que o escritor, Capote, sempre brincasse dizendo que a personagem, Holly, não era uma prostituta, mas sim uma gueixa a maneira japonesa.

Poderia ficar aqui falando da forma crua e cínica que Bonequinha de Luxo confronta uma sociedade a beira da ruina, mas o objetivo não é esse. Muitos artistas ocidentais brilham tanto que causam admiração em todo o globo. Fico feliz em ver que vários artistas que eu curto acabaram ganhando alguma referência no Japão, como por exemplo, é o caso de da minha “ídola”, a rainha dos mistérios, Agatha Christie e a adaptação em anime de suas obras mais famosas, em “Agatha Christie no Meitantei Poirot to Marple”. Outro exemplo é REC, mangá seinen de autoria de Hanamizawa Q-Tarou, onde uma personagem que é aspirante a seiyuu, é apaixonada pelos trabalhos de Audrey Hepburn. Então temos ai diversos filmes da diva americana, inserida no contexto da história, da forma mais charmosa possível.

A história

REC é um daqueles poucos animes de curta duração que valem a pena ser assistidos. Animes assim são bem comuns. Porém, dá pra contar nos dedos de uma mão os que realmente se justificam – na minha curta experiência como otaka, eu só sei mencionar este e Candy Boy. Produzido pela Shaft, em uma é época em que o hoje prestigiado estúdio de animação ainda não era a SHAFT que todos conhecemos, o anime tem 9 episódios, com duração média de 12 minutos.


Fumihiko Matsumaru é um salaryman de 26 anos, que trabalha no departamento de marketing da empresa Snack. Nesse dia em especial, ele havia marcando um encontro no cinema com a mulher dos seus sonhos, que por um acaso, era sua colega de trabalho. Mas Matsumaru tem pinta de perdedor, não é nada do que você já não tenha visto em outros animes, como em Chobits e seu protagonista sem sorte e virgem, que acaba batendo de frente com seu grande amor. Apesar de que tenho dúvidas se Matsumaru era realmente virgem, o velho clichê dos encontros inesperados acontece. Não, ele realmente levou o “bolo” da colega de trabalho, porém já todo desiludido, quando ia jogar os ingressos fora, uma garota se aproxima e começa a dar voz aos bilhetes: "Não, não me jogue (...). Se você fizer isso, ficará atraído por mim".


Essa é Aka Onda, uma aspirante a seiyuu, com seus 20 anos e com o grande sonho de ser uma dubladora de sucesso, tendo como atriz favorita, Audrey Hepburn. Por um acaso, o filme que Matsumaru iria assistir, era estrelado por Audrey: Roman Holiday. Os dois acabam indo assistir ao filme juntos e ao perceber que a garota estava lendo a legendas em voz alta, fica curioso. Ela lhe diz que quer ser Audrey Hepburn (!). O encontro termina com os dois descobrindo que moram no mesmo bairro, mas durante a madrugada o apartamento de Aka pega fogo, queimando todos os pertences da garota.



Não temos ai uma grande cena, pois o tempo é curto e o importante é fazer com que a história se inicie ainda no primeiro episódio. Assim, Matsumaru assistindo o estado da garota, que estava com o psicológico abalado e sem lugar nenhum para ir, a deixa passar a noite em sua casa. Aqui, já começamos a ver o quão diferente e adulto que qualquer outro anime do gênero REC se propõe a ser: Na primeira noite dos dois sobre o mesmo teto, eles acabam fazendo amor. Mas no dia seguinte, Matsumaru ao acordar, percebe que a garota havia desaparecido. Mas acabam se cruzando novamente, quando a empresa de Matsumaru faz uma audição com vários estúdios de dublagens, para escolher a voz para seu novo produto. Ele a vê no meio das concorrentes, vestida com a sua roupa. Mas ela não lhe dá a mínima atenção.

Comentários

Na volta para casa, ele encontra Aka a sua espera e inicia-se ai, uma comedia romântica, sobre um casal que para viver juntos terão que superar todos os obstáculos comuns de uma relação a dois. Além do romance, que é o fio condutor da história, vemos outras duas subtramas, que envolvem a carreira profissional de ambos os personagens e que, a meu ver, é sem dúvidas o que há de mais interessante no anime. REC apesar de reafirmar todos os estereótipos comuns em uma obra do gênero, ainda consegue em toda a sua despretensiosidade fugir do convencional, retratando temas comuns em um relacionamento adulto de forma sutil e sensível.


Temas complicados como, quando a mulher começa a ganhar e ter mais sucesso profissional que a homem e toda a carga emocional que aflige aquele que, teoricamente, é o responsável por ser a referência no casal. E como não é retratado de uma forma maniqueísta, você entende tanto ele quanto ela. É interessante ver como o relacionamento deles vai se deteriorando a cada episódio e como é mostrado de um jeito sutil que isso vai acontecendo aos poucos: O momento em que ele está estressado, por causa do bloqueio criativo no trabalho, e ela se afasta sutilmente para lhe dar espaço, mas ao mesmo tempo se mostrando presente. Só que, ela também tem seus problemas com a carreira que resolveu seguir e sendo cada vez mais ignorada, inevitavelmente há uma ruptura no relacionamento. É bem legal reparar todas essas nuances, como ouço bastante “mimimis” das amigas casadas de minha mãe, vejo como situações extremamente verossímeis e tornou a experiência em se assistir o anime bem mais satisfatória. Como quando da forma mais delicada possível, é retratado o momento da primeira agressão física de um homem sem alto estima, para cima de sua mulher e o famoso orgulho, destruidor de relacionamentos.


Mas nem tudo é drama, afinal, é uma comédia romântica. Como os vários momentos íntimos entre os dois, como conversarem juntos sobre Audrey Hepburn, seus sonhos e o futuro. Fazer compras juntos, já faz parte da rotina. O complicado é quando cada um deles precisa de sua “privacidade” na hora da higiene íntima. Muito complicado e é aquilo que eu digo, intimidade é uma merda e sempre será, espero que esse tipo de coisa não aconteça perto de mim, como meu marido querer fazer o número dois enquanto eu tomo banho. Seria o fim do mundo. E a Aka é bem compreensiva, o Matsumaru faz coisas terríveis perto dela e ela nem se abala. Fiquei chocada quando ele soltou um arrotão enquanto os dois faziam comida e ela não falou nada.


E por falar na Aka, gostei bastante da personagem e não apenas por ela ser fã da Audrey, mas pela forma despojada, simpática e acalorada que ela trata o Matsumaru desde o primeiro encontro. Me lembrou bastante a Alice de “Closed – Perto Demais”, e todo o inicio do filme, que é meteórico na introdução e tem uma Alice deixando todas as formalidades de lado e conversando com um ilustre desconhecido como se já se conhecessem ha tempos. E assim como Alice, Aka tem uma personalidade forte e decidida, apesar de toda a simpatia e de as vezes parecer “estar dando mole”. Já na segunda noite morando com Matsumaru, ela já avisa logo que sexo não vai rolar de forma alguma e que na noite anterior ela só estava fragilizada.


E já que tocamos no assunto, outra coisa que gostei bastante foi o fato de uma mesma situação ser vista de forma completamente diferente por cada um do casal. Ilustrando bem as diferentes perspectivas de cada um; enquanto ele só pensa naquilo e em uma forma de conseguir o que quer, ela está pensando em algo completamente diferente, algo sempre ligado aos sentimentos, como o fato dela estar precisando da ajuda dele com o trabalho de dublagem dela com o filme pornô, mas não ter coragem o suficiente pra pedir isso.

Resumindo

O enredo é simples e depende bastante do seu casal de personagens, mas para quem procura algo bem próximo da realidade, REC pode se tornar altamente satisfatório, apesar de sua extrema simplicidade, desde a parte técnica, ao roteiro. Não há segredo ali. Também não há ecchi, nem apelo visual. Então ver esse anime, esperando closes apimentados, é uma grande burrada. É o tipo de anime que, ou se assiste somente pela história, ou nada feito. E talvez seja esse o mistério do sucesso de REC, mais entre pessoas não iniciadas no universo otaku, do que dentro do próprio fandom ao qual ele é destinado. Eu mesma quando fui assistir ainda não era uma otaka como sou hoje, estava começando a engatinhar nesse mundo subversivo.


Sobre a Audrey Hepburn, além das referências e comentários dentro dos episódios, na abertura e conceito da história, temos cada episódio com o titulo de alguns filmes estrelados pela mulher que separou o que é ser charmoso do que é ser vulgar.

Roman Holiday (A Princesa e o Plebeu - 1953),
Sabrina Fair (Sabrina - 1954),
Wait Until Dark (Um Clarão nas Trevas - 1967),
Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo - 1961),
Love in the Afternoon (Um Amor na Tarde - 1957),
The Children's Hour (Infâmia - 1961),
War and Peace (Guerra e Paz - 1956),
My Fair Lady (Minha Bela Dama - 1964) e
Two for the Road (Um Caminho para Dois - 1967).

E pode ser que seja redundante dizer isso, mas em todos os episódios tem todo o conceito do filme que dá titulo a cada um deles. Como por exemplo, a independência feminina, idealização em uma indústria competitiva, fato explicito nas profissões dos personagens e pela forma como o roteiro desenvolve o tema. Não vou entrar nos aspectos técnicos, basta dizer que é tudo muito simples, mas cumpre bem o objetivo. REC não é genial, muito menos se trata daquele titulo “obrigatório”. Poderia ter sido muito melhor, se tivesse um tempo maior de exibição e o modo acelerado como tudo acontece também não contribui para uma melhor apreciação da premissa e exploração das boas ideias. REC significa “gravação”, e somando todos os episódios, dá praticamente um longa animado. Boa opção para os dias chuvosos e para se assistir a dois. 


Ano: 2006
Tipo: TV
Diretor: Ryutaro Nakamura
Estúdio: SHAFT
Episódios: 09
Duração: 12 min
Gênero: Comédia Romântica/ Drama / Romance


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