Está e a primeira vez que Kino no Tabi emprega a estrutura de um arco de dois episódios, e pela primeira vez vemos storyboards e roteiros pobres em um episódio duplo que é absolutamente decepcionante e previsivelmente chato.
Quando vim a escrever sobre este episódio de Kino no Tabi a um bom tempo atrás, eu já havia assistido ao episódio 4, e o fato deste episódio ser uma miríade de pensamentos filosóficos que aparentemente desconexos (que agora vejo com bastante obviamente do que se trata) à minha mente profundamente bagunçada não me deixou descansar enquanto não colocasse as ideias no papel – no entanto, sem a pretensão [naquele presente momento] de vir a publicá-lo. Penso que falte um pouco de lapidação, mas o que segue abaixo é tudo o que subtrai de tal fascinante episódio.
Kino é uma personagem construída sobre um arquétipo andrógeno, fato que obviamente levou muitos que acompanharam Kino no Tabi em sua exibição original questionarem acerca de seu gênero, tal qual a hiperativa Ed de Cowboy Bebop.
Kuzu, em sua trajetória, flertou com várias abordagens, até finalmente assumir sua temática moral e inclusiva: tudo sob a redoma do amor. A mais esquálida das almas, por mais tempo que assole-se em podridão, terá salvação quando receber o abraço quente da paixão. Tudo isto no retrato de Akane, que teve uma reviravolta abissalmente impossível para não deixar brechas na assimilação de qual deve ser a mensagem final de Kuzu.
Pessoas podem mudar, é claro. Um arrogante egocêntrico pode encontrar a humildade; criminosos podem encontrar arrependimento, ateus podem encontrar-se na igreja e vice-versa. Mas há um tempo, um limite. Obliterar um modus operandi não vem do vazio. Há um trauma, um gatilho que parte o espírito refratário.
Antes tarde do que nunca, aos que ainda persistem em dúvidas, fica claro que Kuzu é, afinal, um conto sobre a tempestuosa jornada da adolescência. Com tremendo foco nos sentimentos e desejos carnais, o que é compreensível tendo em vista o florescimento hormonal da faixa etária, mas ainda assim, com traçados psicológicos proeminentes, e não um fetichismo barato.
Sem pensar muito, o foco semanal de Kuzu se dá nas declarações de Hanabi e Mugi para seus amados professores. Se a conversa entre ambos dava a certeza e conformidade com a rejeição, a voz interna na hora das revelações sugere ideais diferentes, o que é demonstrado nas situações que sucederam os encontros.
Este episódio de Kuzu inicia quase como uma paródia, com pequenas camadas de algo mais profundo que é sugerido durante sua duração, mas apenas confirmadas nos minutos finais.
Essa é a palavra-chave para tachar o núcleo deste novo episódio de Kuzu. Alguns estão em negação, relutando a aceitar seus desejos, enquanto outros mostram-se plenamente mestrados em seus rumos, em uma busca por satisfação própria, libertos do que diz a construção social e a divisa entre o que é moralmente aceitável ou não.